Machu Picchu | uma história que todo sul-americano deveria conhecer

por Jackie Mota 18.mar.2015

Machu Picchu é um dos pontos mais visitados do continente sul-americano e um roteiro clássico entre viajantes mais jovens. Eu mesma visitei o lugar em 2012, em um mochilão que está entre minhas primeiras viagens internacionais. No entanto, isso não significa que o local seja valorizado como merece. Infelizmente, como ocorre com outras civilizações originárias do “novo mundo”, há uma tendência generalizada a tratar Machu Picchu apenas como um grande local místico e a grandiosidade dos feitos intelectuais e conquistas da sociedade quéchua é deixada em segundo plano. Por isso, acredito ser essa, a história do império inca e de Machu Picchcu, uma história que todo sul-americano deveria conhecer e se orgulhar.

Machu Picchu | uma história que todo sul-americano deveria conhecer

Quase sempre os relatos associados a Machu Picchu são acompanhados de adjetivos como mágico, místico, espiritual e sobrenatural. E, veja bem, não é que Machu Picchu não seja mágica e que ninguém possa considerar o lugar místico, muito menos que a religiosidade não fosse um ponto importante da sociedade inca ou, menos ainda, que eu alguma vez cogite dizer o que as pessoas podem ou não fazer e sentir. Mas, o que noto é que, ao passo que o lado espiritual é valorizado, todo o resto recebe muito menos destaque do que merecido.

Um exemplo desse tipo de comportamento é a atribuição dos conhecimentos e feitos da sociedade inca (e também de outras sociedades antigas não européias como os maias ou os egípcios) a alienígenas. Eu adoro assistir a esses programas, admito, e me divirto muito com as teorias. Mas no fundo, aventar essas hipóteses é apenas mais um sinal de desrespeito a essa culturas. Para começar, muitas dessas sociedades foram exterminadas por essa mesma mão colonizadora que agora admite não conhecê-las. Muito conhecimento se perdeu porque não lhes foi dada a chance de ser preservado e repassado. E depois porque, no fundo, o que estamos fazendo ao querer dar o crédito de tudo o que aqui vemos a extraterrestres é não admitir que, apesar de não usarem ternos e vestidos luxuosos, estas sociedades foram capazes de alcançar conhecimentos que nós não desenvolvemos sozinhos ainda. Ou seja, é mais ou menos como dizer, “se eu não sou capaz de dizer como fizeram, eles também não eram, deve ter sido coisa de seres de outros planetas”. Puro recalque.

Então, o que eu senti e sinto muita falta, e gostaria de fazer neste post, é valorizar Machu Picchu como um símbolo importantíssimo do nosso próprio desenvolvimento, dos povos da América do Sul pré-colombianos, e como um exemplo de um pouco do que o processo de colonização dizimou.

Machu Picchu | uma história que todo sul-americano deveria conhecer

Se Machu Picchu me despertou sentimentos, eles foram de orgulho e de tristeza ao mesmo tempo. Senti uma enorme alegria ao encontrar de forma mais intocada resquícios de uma sociedade cujo desenvolvimento pode não ter alcançado o domínio de armas de fogo ou do comércio em escala global, mas que possuía, por méritos próprios, conhecimentos avançados em áreas como agronomia, astronomia e arquitetura. Mais que isso, uma sociedade que tinha valores centrais de vida muito diferentes dos da sociedade européia da Era dos Descobrimentos e que podem, na minha opinião, ser pontos de novas reflexões para o homem contemporâneo.

Tristeza senti por me dar conta, mais uma vez, do quanto somos embriagados dessa visão eurocêntrica durante nossas vidas. Me peguei com vergonha ao encarar Machu Picchu e lembrar de todas as vezes em que chamei, tão normalmente, a chegada dos espanhóis aqui de “descoberta“. Das vezes em que usei o termo sem questionar que aqui já existia gente, indivíduos, sociedades. Como os incas de Machu Picchu, como os nossos tupinambás ou os sioux norte-americanos. Gente. Gente daqui.

Visitar Machu Picchu me deu a certeza de que é preciso não fazer e não deixar que façam uma hierarquização de sociedades e pessoas, e nunca aceitar critérios simplesmente porque assim alguém disse. Não aceitar como verdade que quem andava de peruca e pó de arroz no rosto era superior a quem preferia pouco se cobrir e dedicar seu tempo a entender a terra e dela tirar alimentos em vez de criar sistemas intrincados de juros e capital.

Viagem Machu Picchu e Cusco 077

Visitar Machu Picchu me mostrou que é preciso olhar para a história e seus contextos e apenas entender que as sociedades têm ambientes, recursos e opções diferentes e que, por isso se desenvolveram de forma diversa, exatamente o que faz delas únicas e valiosas. E esse tipo de conhecimento, acredito, é fundamental no nosso mundo atual em que muitos querem assistir a uma guerra de civilizações. Com compreensão e aceitação, sociedades não se enfrentariam, mas se ajudariam. Afinal, somos de lugares diferentes, mas no fundo, todos seres humanos.

Estar ciente do valor único de cada ser humano é reconhecer e lembrar sempre que, o que houve por aqui, nas Américas – e não apenas no lado Sul, mas também inegavelmente na América do Norte – foi um massacre. Em alguns lugares se pode, inclusive, falar de genocídio. Massacre de gente, de indivíduos fisicamente, e de cultura e legado.

Machu Picchu | uma história que todo sul-americano deveria conhecer

Eu sempre quis falar sobre Machu Picchu aqui no blog com esse viés, pois me incomodava essa mistificação do lugar como algo apenas espiritual – alguém aí lembra de quão ridícula foi a abordagem da cidade em uma novela da Globo? Mas esse ano essa vontade renasceu após eu visitar o Coliseu, em Roma. O monumento é outro daqueles locais que mesmo quando a gente já viu um pouco do mundo, nos afeta. Mas lá eu só ouvia comentários e lia relatos que engrandeciam a capacidade intelectual e de organização  de seus autores. E isso me relembrou como eu acho injusta a abordagem sobre Machu Picchu.

Enquanto, por aqui, os tópicos mais falados sobre Machu Picchu se referem à sua cosmologia, religião e crenças, pouco se fala que a rede de interligação de estradas do império inca na América do Sul foi um feito nada trivial. Ou que os incas não se dedicavam ao comércio e que a economia deles não tinha sequer o conceito de dinheiro. Uma civilização que conquistou outras e se estendeu por um território imenso, construiu cidades como a própria Machu Picchu que ainda hoje estão de pé SEM dinheiro. Incrível, não? Único! Pouco se fala que, por outro lado, eles priorizavam o estudo da terra e, apesar de viverem em ambientes muito desafiadores, conseguiam suprir quase todas as necessidades materiais de sua sociedade localmente.

Viagem Machu Picchu e Cusco 083

Bom, demorou (bastante), mas conseguiu falar um pouco aqui sobre a minha visão. E, para completar, quero sublinhar alguns fatos que realmente não sei se todo mundo que já foi ou pretende ir a Machu Picchu conhece. Como o post já está enorme, fiz esse post separado: 7 fatos que você talvez não saiba sobre Machu Picchu.

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Publicado por Jackie Mota

Uso minha formação em jornalismo e minha experiência organizando as viagens da minha própria família para escrever posts didáticos e detalhados para poupar o SEU tempo. Nos meus textos você encontra informações práticas apuradas com responsabilidade e organizadas de acordo com as necessidades do viajante. Referências histórias e análises sobre a política e impactos do turismo também estão presentes no meu trabalho para que você viaje bem informado, seguro e consciente - sou especialista em Relações Internacionais e Mestre em Estudos Estratégicos da Segurança Internacional.

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Comentários

  1. Paul Pic
    27 abr 2016

    Jackie,

    Adorei seu olhar sobre Machu Picchu. Compartilho muito do seu pensamento sobre esse e todos os outros povos antigos que a cultura ocidental, com seus parcos 300 anos de ciência, insiste em desprezar. Uma única ideia no ultimo parágrafo eu sinto discordar. Lamento um pouco a pouca importância que você deu à ciência da cosmologia presente na cultura do povo de Machu Picchu. O conhecimento dos astros é hoje e sempre foi de fundamental importância para a sobrevida do homem. Através dele é que se cria a cadência da vida na terra: quando plantar, quando colher, quando esperar a chuva, o frio, a seca e muito mais. Nós, de cultura ocidental temos perdido nosso elo intrínseco com o cosmos e todo o conhecimento que povos anteriores tiveram dele. Entenda que tudo que estou dizendo nada tem a ver com misticismo ou seres de outros mundos! Não há como entender esses povos sem passar por seu íntimo conhecimento astronômico e pela importância desse conhecimento no cotidiano de suas vidas.

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