Exercícios físicos: ampliando nossos horizontes

“O sistema é foda. Ainda vai morrer muito inocente”. A frase é do filme Tropa de Elite, eu sei, mas o assunto do post não é o crime organizado e o combate a ele (as misteriosas conexões que nosso cérebro faz, não?). O assunto é mesmo o sistema, esse sistema que funciona perfeita e lucrativamente quando todos nós nos adaptamos a ele, sendo iguaizinhos, indivíduos apenas no número, massa no comportamento que se encaixa nas suas engrenagens produtivas sem atritos. É, é mais barato, é mais fácil, mais prático tratar todo mundo igual.

Então se a criancinha não tira notas boas no colégio óbvio que a culpa, o erro, é dela que deverá procurar algo para se consertar, algo que pode ser um reforço escolar ou até uma medicação (já viu a epidemia de crianças com déficit de atenção?), mas obviamente não pode ser a mudança dos métodos da escola para contemplar a todos.

Do mesmo modo, o sistema quer me fazer crer, também, que se eu não consigo parar em uma academia por pelo menos 3 meses, não fico feliz e realizada porque acordei às 5h e corri 10 km ou levantei 200 kgs em cada perna em um moderno aparelho de tortura antes de ir para o trabalho, a errada sou eu, que sou natural e irrevogavelmente uma sedentária. O sistema quer me fazer crer que eu tenho duas saídas: ou inicio um #projeto e me adapto à vida na academia (“tem que trenar”) ou aceito o #fail, me assumo sedentária e aceito as consequências de não cuidar de um aspecto que tem impacto na minha saúde. Tá certo?

Não, não está. Fico hoje realmente abismada em entender o porquê de a sociedade ter se limitado tanto em termos de atividade física. Fazer uma atividade física virou sinônimo de academia mesmo em cidades com ambientes que permitem a prática de esportes variados como o Rio. Pense aí com seus botões: quando alguém diz que precisa se exercitar o que é que vem primeiro à sua mente? Aposto que é uma academia. Exercício virou sinônimo de malhar, um verbinho sem vergonha que também significa “trabalhar o ferro” e “falar mal”. Não podiam ter escolhido verbo melhorzinho ou é para a gente já criar antipatia de primeira?

Além disso, mesmo quem prega a prática de exercícios ao ar livre se limita a indicar a corrida e a bicicleta. Em 2014 e a humanidade ainda é tão limitada? No lo puedo creer. Tenho plena certeza que nossos horizontes no campo da atividade física são mais amplos. E comecei a abrir os meus durante nossas viagens.

Quando planejava uma viagem eu normalmente não incluía nada que fosse me exigir nenhum esforço físico, afinal já tinha aceitado o rótulo de sedentária crônica e sempre pensava “isso não é para mim”. Mas vejam bem, apesar de nunca ter sido uma pessoa muito ativa fisicamente – realmente prefiro ficar sentada lendo – quando criança eu encontrava prazer em atividades como a dança (fiz ballet, jazz, dança moderna e cigana). Mas, infelizmente, enquanto para crianças a dança muitas vezes está inclusa no próprio colégio ou existem muitas escolinhas cujos horários se encaixam com o horário escolar, para adultos é missão impossível buscar aulas de dança. As escolas são caras, com horários reduzidos e a oferta nem se compara à de academias. Eu tentei por umas 3 vezes voltar ao ballet, mas me curvei perante os impedimentos e acabei entrando em uma academia para fazer musculação/spinning/localizada. E, claro, saí meses depois.

É ótimo que as crianças sejam estimuladas a fazer dança (e com as lutas e a natação é mais ou menos assim também), mas não é contraproducente que os estímulos sejam retirados à medida que a criança cresce? É bastante comum que quando saia do colégio o adolescente saia também da dança/luta/piscina e vá para uma academia puxar ferro. Justamente quando a vida nos empurra para rotinas cheias de responsabilidades, prazos e estresse a gente dificulta a prática de atividades que além dos benefícios físicos são também atividades artísticas com alto poder desestressante e impõe as opções ou se tranca na academia ou senta no sofá. Que feio, sociedade.

Mas como eu contava, passei minha adolescência e quase uma década de vida adulta entrando e saindo de academia. Sou naturalmente inquieta e não consigo me prender em atividades repetitivas. Minha rotina era entrar em uma academia nova, testar todas as aulas e sair. Então foi uma descoberta durante uma viagem pela Bolívia e Peru me ver curtindo, realmente adorando, fazer esforço físico. Minhas amigas diziam que eu não cumpriria meu roteiro, mas eu não apenas o cumpri como adorei subir ao topo de uma ilha, rodar meia cidade de bicicleta e mais ainda subir ao topo de Huayna Picchu.

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Essa foto acima foi tirada na descida de Huayna Picchu e eu estava cansada, claro, mas pensando, “poxa, talvez eu não queira ser sedentária, talvez eu tenha sido obrigada a isso. Não achei a subida difícil e adorei fazê-la. Eu gostaria de passar algumas horas da minha semana fazendo isso”.

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BIKE LIMA ISLA

Viagem argentina Ushuaia como ir onde ficar onde comer o que fazer354 Passeios que eu não teria feito se ouvisse o sistema

E foi aí que, voltando ao Rio de Janeiro, iniciamos nossa busca por atividades mais lúdicas. Primeiro fazendo trilhas, como no Morro Dois Irmãos e depois tentando encontrar algo mais prático de encaixar na rotina. Eu acabei me encontrando em uma luta, o Muay Thai, que além de uma parte de condicionamento físico puxado exige concentração e estratégia. Depois, acompanhando meu marido, me apaixonei pelo Remo. Meu Deus, isso é o Rio, temos a Lagoa e a Baía, por que tão pouca gente rema? Não, não é caro, é mais barato que uma academia. Mas você sabia disso? Esse ano ainda comecei a nadar e descobri em poucas semanas no meu corpo resultados estéticos que eu nunca obtive com musculação.

O grande benefício de todas essas atividades foi o despertar da vontade de praticar exercícios. Às vezes eu não quero fazer exatamente a mesma aula todo dia, mas eu sinto vontade de sair de casa e ir fazer algo. Atualmente eu revezo e volta e meia me meto em uma aula na qual não estou inscrita, como em outro dia em que fiz hidroginástica (e curti, ao contrário do que me dizia meu preconceito). A mudança foi mais na cabeça que jogou na lixeira o rótulo de sedentária e, principalmente, que parou de encarar a academia como a única solução possível.

Hoje eu me recuso terminantemente a dizer que não gosto de exercícios. Eu gosto sim. Eu não gosto de algumas atividades, do ambiente da academia, mas eu adoro remar, estou aprendendo a nadar e até uma corrente da Yoga me agradou. E sei que, se se eu estiver cansada dessas atividades, existem muitas  outras por aí para serem descobertas, bem como essas estavam encobertas para mim e, algumas, são economicamente mais vantajosas que pagar uma academia (enquanto outras, como o ballet, infelizmente são bem proibitivas). Da mesma forma meus roteiros de viagem hoje não são limitados por “eu não consigo”. Fizemos trekking no Parque Nacional Tierra del fuego e remamos no Lago Escondido, em Ushuaia, além de incluir bike tours em quase todas as viagens.

Exercício físico pode ser para você, nesse momento e de forma imediata, uma preocupação por conta de uma insatisfação estética e entrar em um #projeto pode ser, sim, uma forma de sair da inércia. Mas se por acaso, em algum momento, você perceber que o aeróbico+musculação não é o que faz seu dia melhor, não incorpore o #fail. Aceitar o rótulo e desistir dos exercícios é deixar sua saúde de lado. Informação é poder, repito muitas vezes e, nesse campo, ter amigos com interesses e vidas diferentes é uma riqueza. Pergunte a seus amigos do que eles gostam e/ou fazem, pesquise em associações atléticas e clubes. E, claro, pode deixar sua sugestão nos comentários, contar sua experiência, indicar atividades dentro ou fora de academias que sejam mais adequadas a quem nunca se adaptou às atividades padrão como eu.

PS: Antes que perguntem, explico que acho a corrida um exercício maravilhoso, mas não posso praticar porque tenho uma inflamação nos calcanhares (Causada por má postura), por isso, não é uma opção para mim.

PS2: Tentei deixar claro, mas não custa esclarecer ainda mais: se você tem disposição e adora ir à academia todos os dias, ótimo, não tem problema nenhum. O texto é dirigido a quem, como eu, nunca se adaptou ao mundo fitnesse tradicional.

PS3: A Liv, do Go to Heaven, escreveu sobre como ela se encontrou, no circuito na praia. Bem legal. Veja aqui.

 

Cresceu no interior de Minas, sempre cercada de livros. Desde criança tem uma alma antiga. Encontrou no Rio o amor da sua vida, com quem ama viajar e se casar (again and again). É mãe de dois buldogues, Maquiavel e Foucault, jornalista e mestre em Estudos Estratégicos.

6 Comments on Exercícios físicos: ampliando nossos horizontes

  1. Aline Quadros
    2 de março de 2015 at 19:35 (5 anos ago)

    Ameeeei o texto! Excelente! Parabéns pelo texto e por não desistir de tentar encontrar uma opção boa pra vc. =)

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    • Jackie Mota
      17 de março de 2015 at 22:57 (5 anos ago)

      Obrigada pelo comentário =)
      bjs,

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  2. Gabi
    14 de outubro de 2013 at 21:07 (6 anos ago)

    Eu também tenho horror do ambiente de academia! Odeio a música, os aparelhos, tudo! rs Me encontrei no Pilates. É caro, mas pago sem medo de largar depois de alguns meses. É muito bom e ainda te dá uma consciência corporal incrível! Já fiz boxe chinês e AMAVA. Eu adoraria fazer mais esportes aquáticos ao ar livre, mas onde eu moro não tem essa opção…

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    • Jackie Mota
      15 de outubro de 2013 at 0:14 (6 anos ago)

      Que pena que não tem opção de exercícios aquáticos. Eu nunca tinha pensado nessa área, mas meu marido sempre quis remar. EAí fui na antação pra complementar e estou amando.
      Do pilates eu não gostei tb. É puxado, mas eu achava meio paradão.
      bjs,

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  3. Tatiane Dias
    14 de outubro de 2013 at 1:11 (6 anos ago)

    Jackie,
    li todos os post’s do blog novo! Tô curtindo!

    Achei esse em especial bem interessante.
    Até antes da faculdade eu não curtia atividades físicas, nem danças. Sempre ficava no efeito sanfona por causa da ausência de exercícios.

    Eu tentava caminhar na Lagoa, mas ia 1 semana e depois parava. Até que entrei na academia com a dupla musculação + aeróbico. Esse esquema vai desde de 2006 até hj com idas e vinda.

    Em 2013, essa dupla não está adiantando mais. Tenho matado mais do que ido, tenho tentado achar uma nova atividade, mas está difícil. Acho que tô precisando de uma fase preguiça pra voltar aos exercícios físicos.

    Vamos ver como as coisas evoluem.

    Beijos

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    • Jackie Mota
      14 de outubro de 2013 at 18:52 (6 anos ago)

      Que legal que gostou, Tati.
      Aqui no Rio temos muitas opções de atividades, acho que logo logo vc encontra alguma atividade pra mudar de ares.
      bjs,

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