Minha filosofia sobre bens materiais ou como lido com coisas na minha casa

Quando criança, meu pai me apelidou de Maria Cacareco (hahaha os apelidos do meu pai são sempre os melhores!). Ele me chamava assim porque eu adorava guardar tudo quanto era pote (de iogurte etc), pacotes (de presentes), caixas (de sapatos), sacolas, papéis, revistas e adorava brincar com essas coisas, apesar de ter um monte de bonecas e peças de “casinha” lindos e novinhos. Eu guardava todos os meus brinquedos ganhados e bonitos em uma estante, perfeitamente organizados, como um enfeite, e eles impressionavam sempre as outras mães que nos visitavam pela boa conservação em que se encontravam. Mas, no dia a dia, eu brincava mesmo era com os “cacarecos”, coisas que eu guardava em um grande saco branco (que, diga-se de passagem, minha mãe sonhava muito em jogar fora!).

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Então, eu cresci pensando que eu era uma pessoa que guardava coisas inúteis, que carregava pesos desnecessários pela vida. Acho que quanto mais eu pensava nisso, mais coisas eu guardava, como uma forma de reafirmar o estereótipo. E isso sempre ficou claro a cada vez em que eu me mudava de casa, o que aconteceu mais de 2 dezenas de vezes na minha vida, quando eu via a quantidade de caixas da mudança. O Rômulo, meu marido, reforçou um pouco mais essa minha crença e autoimagem, sempre ressaltando pros nossos amigos o quanto eu era #aloka dos vidrinhos usados.

Talvez por algum sentimento de culpa, ou medo de virar um personagem de Acumuladores, do Home&Health, comecei  a ler sobre minimalismo há uns anos. E, por mais incrível que pudesse ser, eu me identicava muito, muito mesmo, com os princípios e, pasmem, práticas dessa filosofia, o que me deixou bem confusa sobre quem eu era de verdade. Tudo bem que eu sou meio paradoxal, do tipo que não come beterraba, mas ama suco de laranja com… beterraba. Mas daí a ser uma acumuladora e, ao mesmo tempo, minimalista, era demais.

De qualquer forma, apesar de me identificar muito com o minimalismo, não dava para me identificar como uma minimalista. Tudo bem que eu nunca fui consumista, nunca me descontrolei com compras, gastando mais do que posso ou me arrependendo do que adquiri. Nem mesmo meu maior ponto fraco – os livros – jamais me tiraram do controle. Pelo contrário, sempre fui bem comedida, especialmente com itens como roupas, sapatos, maquiagem e acessórios. Tenho menos itens destes tipo do que qualquer amiga minha da mesma idade e classe social.

Também é verdade que eu tenho um armário considerado compacto. Ele resume-se a duas portas, o mesmo tamanho do armário do Rômulo, e considero totalmente desnecessário, por exemplo, comprar mais um vestido caríssimo para uma festa chic, quando vou a poucos eventos formais assim por ano e já tenho uns 5 desse estilo. Para mim, sempre fez muito mais sentido ter um número assim bom de modelos básicos e versáteis, ou que eu realmente ame e, daí, se precisar, pedir um emprestado a alguma amiga e sempre, sempre, colocar os meus pra circular com amigas por aí, em vez de deixá-los pegando mofo. E, principalmente, não faz nenhum sentido para mim não repetir uma roupa. Peco justamente pelo oposto, usar a mesma roupa mil vezes. Afinal, se me identifico com aquela peça, na minha cabeça faz sentido que ela não saia do meu corpo.

Mas daí a não consumir ou consumir bem pouco, há uma baita diferença e, se um dia eu encontro um vestido ou qualquer peça, por mais escalafobética e menos combinável que seja – tipo minhas galochas laranjas (essas aqui) – com a qual eu me identifique, então eu compro, e sem culpa alguma.

Então, apesar de não querer passar das duas portas de armários por achar desnecessário, nunca quis fazer um armário com uma quantidade x de peças, por exemplo. Adotei a prática de viajar leve, em que abusar das roupas básicas faz toda a diferença, e viajar de outra forma já não faz mais sentido pra mim, mas amo ter um vestido pela única justificativa dele me fazer sentir mais confiante naqueles dias em que estou me sentindo meio pra baixo. Eu gosto de usar roupas que comuniquem como me sinto, meus gostos, minha personalidade, então não consigo me identificar com limitações por número ou regras, mas sim em ter apenas o que uso, me representa em um determinado momento da minha vida, significa algo ou me deixa mais feliz.

Contra meu ser minimalista pesa também o fato de que minhas compras e posses não se resumem só a livros ou vestuário. Eu compro objetos “completamente inúteis” como uma cabeça de Buda, um carrossel russo, um conjunto de carimbos ou uma caixinha com estampa de cartas. Não dá mesmo para ser considerada minimalista assim, do mesmo modo que não dá para dizer que sou consumista. É, e nem mesmo acumuladora, viu? Desde que passei de ter uma casa onde moro pra um lar que construo com minha família, desenvolvi um amor legítimo por organização – e, lembrem-se organização é diferente de arrumação – então, não se passa um mês completo sem que eu coloque pelo menos um dos armários ou estantes da casa abaixo para conferir a tudo seu lugar próprio nas nossas vidas. E a cada novo ciclo de organização tudo aquilo que não tem mais espaço nesse novo momento desse fluxo que é nossa vida, se vai, sem sofrimento, em sacolas e sacolas de doações ou lixo.

Então, com essa identificação com tendências tão opostas, demorou um pouco para que eu conseguisse compreender de verdade minha relação com as coisas materiais. Mas hoje eu a entendo perfeitamente.

Percebi que na minha infância, na verdade, eu não estava acumulando coisas, só estava exercendo a criatividade e imaginação tão próprios dessa fase. Talvez eu estivesse até mesmo me rebelando um pouco contra os brinquedos super machistas da época, pois como eu não tinha brinquedos como Lego e blocos de montar, e não tinha com quem brincar com os joguinhos, eu pegava toquinhos de madeira pra criar minhas cidades e carros, e decorava ambientes como castelos (era o que eu mais gostava de fazer, criar ambientes) com potes, laços e caixas usados, em vez de embalar bonecas,  fazer comidinhas no fogãozinho ou passar roupas na mini-tábua =/ Eu até brincava de comidinha sim, mas preferia fazer isso com meus potes reciclados e usando matinhos e terra do quintal, mais ao estilo poção mágica, do que com hambúrgueres de plástico perfeitamente produzidos pela indústria de brinquedos.

A verdade é que eu só gostava de dar usos diferentes pra objetos que eram tratados como descartáveis e de dar um significado único, só meu, para eles. Eu gostava de guardar lembranças de momentos especiais, como papéis de presente dados por gente querida ou provinhas e cadernos da escola em que eu tinha colocado tanto empenho e capricho.

O que não me tornou uma Maria Cacareco de verdade foi que eu nunca deixei que aquele saco se tornasse um peso para minhas brincadeiras. Ele nunca se tornou tão grande que eu não conseguisse carregá-lo do meu quarto pro quintal, nem teve tantas coisas que guardar e tirar os “brinquedos” de lá tomasse mais tempo que a brincadeira em si. O que talvez meus pais não vissem, e nem eu, foi que apesar de guardar tantos papéis, minhas mesa da escola sempre estava organizada para eu estudar. Eu nunca deixei que as lembranças do meu passado das quais tinha orgulho, atrapalhassem minha dedicação a minhas novas tarefas a cada dia.

De alguma forma, aquela Jackie criança entendia que só poderia abrir espaço para novas coisas quando deixava outras partirem. Eu já sabia que mesmo coisas banais e triviais  podem fazer a diferença na nossa vida, se a gente se permitir ser tocado. De alguma forma, eu tinha aprendido a transformar uma infância no meio do nada e sem acontecimentos super emocionantes, e tantas vezes tão solitária, em dias cheios de memórias felizes.

Quando finalmente me dei conta disso tudo, fiquei feliz por não ter deixado esse hábito de lado, apesar das censuras e pressões. Fiquei feliz de ainda hoje eu ser desse mesmo jeito, pois é algo que tendo se manifestado desde tão cedo, consigo perceber como meu e não como uma influência externa. Faz parte da MINHA personalidade, e nesse mundo em que tentam sempre nos encaixar em padrões, é incrível descobrir que consegui, de alguma forma, preservar algo assim intacto.

Nos últimos anos, com a prática da Yoga, esse foi um aprendizado muito importante: a minha personalidade, assim como a sua e de cada pessoa, é única e devemos dar muito valor a ela. Então, identificar o que faz parte de mim, da minha essência, os meus gostos, meus desejos e sonhos, tem sido uma busca permanente, rica e cheia de descobertas. Ao ver reveladas essas minhas verdades e celebrá-las, percebo que os outros ao meu redor passam também a admirar esses meus traços e características, num reforço positivo que só me estimula cada vez mais a construir meu caminho com minhas próprias verdades.

Hoje, por exemplo, eu acho lindo quando o Rômulo respeita esse meu traço e acabou criando mais uma forma de demonstrar seu amor por mim. Eu me sinto amada quando, ao comprar algo, ele escolhe o que tem o vidro mais bonito, pois já sabe que ele poderá virar um arranjo pro nosso #floresdasemana, um momento que faz meus dias mais alegres e nossa casa mais cheia de cores e carinho. Ou, então, quando ele guarda os ingressos de uma atração em uma viagem, pois sabe que vai tudo para uma caixa de lembranças e que, numa tarde qualquer, eu vou pegar uma caneca de café e espalhar tudo no chão, e ficar ali por horas olhando cada coisinha, relembrando cada momento gostoso vivido naquele destino ao lado dele e agradecendo muito por todas as benções que nossas vidas recebem, em vez de passar horas #chingandomuitonotwitter caso não possa fazer uma nova viagem por ora.

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Foto na nossa casa: sobre a mesa, as #floresdasemana em garrafas de vinho, uma comprada em Paris, onde fui pedida em casamento, e outra no Chile, na nossa lua de mel (e, pra completar o “tema”, em um decanter)

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Presente do marido: hidratante da L’Occitane que vinha nesse vidro fofo. Logo, ele virou um vasinho que fica no nosso banheiro =)

Hoje, ele pode dar valor a isso, porque eu descobri quem eu sou. Hoje eu sei que eu sou alguém que tem a capacidade de dar um significado pessoal e especial a coisas que poderiam ser descartáveis, alguém que consegue não deixar um gesto de carinho preso em um único momento do tempo da minha história, mas que o revive muitas e muitas vezes ao trazer um pedacinho dele para o meu cotidiano, como forma de agradecer à vida muitas vezes por tudo de bom que eu recebo.

Hoje, sou alguém que vive com o necessário, porque só tenho aquilo para o qual dou um uso, seja ele tão prático como ralar legumes ou simbólico e tão importante como deixar a mesa em que almoçamos colorida e perfumada, me lembrar da viagem incrível que fizemos pelo Myanmar ou do dia em que o amor da minha vida me pediu em casamento.

Hoje, sou alguém que acumula coisas, porque minha vida acumula bençãos (ou sortes, ou desejos realizados, como quiser). E sim, eu também sou minimalista porque não tenho excessos daquilo que, pra mim, é supérfluo, e me concentro apenas no que me faz feliz, realizada, confiante, leve e livre para ser, cada vez mais, eu mesma.

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4 Comments on Minha filosofia sobre bens materiais ou como lido com coisas na minha casa

  1. Karla Larissa
    25 de dezembro de 2015 at 23:24 (7 anos ago)

    Que texto lindo Jackie. Super me identifiquei porque também não sou uma pessoa consumista, mas gosto de guarda coisas que têm significado. Com minha professora de yoga também aprendi uma coisa: ser desapegado não é não possuir coisas , mas não deixar as coisas possuírem você. ?

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    • Jackie Mota
      8 de janeiro de 2016 at 1:26 (7 anos ago)

      Gostei da filosofia da sua professora de Yoga =)
      beijocas!

      Responder
  2. Fernanda
    8 de novembro de 2015 at 22:26 (7 anos ago)

    Ai, que texto maravilhoso.
    Adorei e me identifiquei muito. Leio bastante e me identifico com as práticas minimalistas, mas também sou muito conhecida por guardar trecos inúteis como papéis de presente e vidrós aleatórios. Sou comedida como consumidora e também não quero me privar de comprar uma cerâmica marajoara quando me der na telha e eu acreditar que vai tornar meu viver mais bonito e significativo.

    Obrigada por me induzir a me aceitar e praticar comigo mesma o que eu tenho de sobra pra dar pros outros: compreensão e compaixão.

    Parabéns pelo texto <3

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    • Jackie Mota
      17 de novembro de 2015 at 16:53 (7 anos ago)

      Poxa, Nanda, eu que adorei seu comentário =)
      bjs,

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