Tour no Rio: para turistas e cariocas

por Jackie Mota 22.mar.2011

Bom, como todos sabem, eu não sou carioca. Vim morar no Rio em 2002 e me apaixonei pela cidade. E acho que a conheço bastante bem para uma não-nativa. O centro da cidade sempre foi o local que mais me atraiu e sempre gostei de perambular por lá.

Em 2006 eu fiz um passeio guiado, e grátis, maravilhoso pelo centro que me deixou ainda mais apaixonada pela cidade. Em 2007 levei o Rômulo para fazer comigo o mesmo passeio, mas outro roteiro, desta vez à noite –  mostrei uma foto nossa durante o passeio ontem, aqui. E só hoje me lembrei que ainda não havia indicado o programa aqui. Que falha enoooorme! Vou corrigí-la já!

O passeio que fizemos faz parte de um programa de extensão da Faculdade de Geografia da UERJ, chamado Roteiros Geográficos do Rio. Na época havia apenas dois roteiros distintos, mas hoje são 10 roteiros diurnos e 11 noturnos, quase todos a pé. 
O coordenador do programa  e guia é o professor João Batista Mello, uma figuraça e grande conhecedor da história e geografia carioca. 

Passeio de 2006

Em 2006, antes de namorar o Rômulo eu fiz o roteiro (Re)conhecendo o Centro do Rio a pé em um sábado pela manhã. Dando uma olhada no blog com os roteiros atuais, acho que houve algumas pequenas mudanças neste roteiro ou minha memória pode estar me confundindo, pois acho que quando o fiz ele terminava com um almoço no Amarelinho. Mas a parte inicial é a mesma.

O passeio começa no Mosteiro de São Bento, onde assiste-se  um pouco da missa com cantos gregorianos. O Mosteiro foi construído em 1590 e fica numa colina no meio do que é hoje o  centro comercial do Rio. É, além de mosteiro, um colégio super tradicional. Sua igreja é belíssima – e, aviso às noivas, realiza casamentos de seus ex-alunos.


O exterior do mosteiro (Foto de Monica Dantas)


O interior do Mosteiro (Fotos de Carolina Pires)


Do Mosteiro mesmo, de onde tem-se excelente vista, João fala sobre a Praça Mauá, a área Portuária e a Baía de Guanabara. Essa parte deve estar ainda mais interessante agora, já que a área portuária passa por revitalização (Projeto porto Maravilha) e também foi feita uma importante descoberta no local. Durante obras de drenagem da área, encontraram o que deve ser o Cais do Valongo e da Imperatriz, datados do século XIX e onde desembarcaram mais de um milhão de escravos. Ah, sim, em volta da Praça Mauá há vários prédios ricos em história e com estilos diferentes de construção, como o que abrigava o jornal A Noite.

Descendo a colina, saímos na Avenida Rio Branco, uma das principais ruas do Centro do Rio e João conta a história de algumas construções ali, como o Edifício RB1. Ele também destaca detalhes arquitetônicos desta parte da rua, que mistura edificações modernas e antigas. Dali, passamos pelo Largo de Santa Rita (também conhecido como Largo da Sardinha) e entramos na Rua Teófilo Otoni (e de Lamartine Babo) até chegar à Avenida Presidente Vargas. Esta Avenida, projetada durante o govenro Vargas, é de grande importância para o trânsito do Rio e liga o Centro aos canais que levam à Zona Norte.

Na Presidente Vargas paramos então na Igreja Nossa Senhora da Candelária, a única igreja que sobreviveu à construção da avenida. Essa igreja imponente tem origem em 1609, segundo uma lenda. Ali um casal teria erguido uma pequena capela em agradecimento por seu navio não ter naufragado. Ao longo do tempo ela foi sendo ampliada e foi inaugurada em 1811 com a presença do futuro Rei Dom João VI. A Candelária tomaria sua forma atual somente em 1877. Dali, seguimos para o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), que funciona em um belíssimo prédio de estilo neoclássico construído em 1880. O CCBB tem uma programação cultural maravilhosa – é meu centro cultural preferido no Rio. Não deixe de reparar na abóbada central. 


A igreja da Candelária (foto de Fotógrafo Desconhecido)



O CCBB (foto de Fotógrafo Desconhecido)


CCBB (foto Jann La Pointe)





CCBB (foto Jann La Pointe)


Dali segue-se uma parte muito interessante porque são ruazinhas pequenas, com casario bastante preservado, e aos sábados, sem o batalhão de trabalhadores por ali, fica fácil ser transportada para a vida colonial. Passa-se pelo Centro Histórico Beira-Mar, a Rua Buenos Aires, o Beco das Cancelas, a Rua do Ouvidor. Na Travessa do Comércio o sobrado de Aurora e Carmen Miranda são destacados.

O Arco do Teles – entre o CCBB e a praça XV – (foto de Fernanda Petelinkar) 



O Arco do Teles – entre o CCBB e a praça XV – (foto de Marina Favato)



Chega-se à Praça XV e ao Paço Imperial e de Isabel de Orleans e Bragança. O Paço, como construção, remonta ao século XVII, e em 1808 foi transformado na residência real quando a corte portuguesa chegou ao Brasil. Atualmente o Paço é um Centro Cultural e abriga exposições permanente e temporárias. Durante o passeio, o João irá mostrar uma maquete da cidade que está exposta no local. Mais um aviso: o Paço Imprerial tem um espaço para festas, de casamento, inclusive.



O Paço Imperial (fotos de Patrícia Figueira)


Nesta foto está à esquerda o Palácio Tiradentes e à direita o
Paço Imperial (foto de Patrícia Figueira)

Bom, e para terminar o atual roteiro, o Palácio Tiradentes, a Rua São José e o Largo da Carioca, onde está o Convento de Santo Antônio. O Palácio Tiradentes atualmente abriga a Câmara dos Deputados estadual e era a sede do Congresso Nacional aé 1960, quando o Rio deixou de ser capital do país. Foi ali que Tiradentes ficou preso, mas em outra construção, que foi demolida. O Palácio atual foi construído em 1926. 


Já o Convento fica em cima de um morro, bem destacado no Largo. Aliás, o João conta a história dos morros do centro, como o Morro do Castelo, que foi simplesmente desmontado e retirado dali. Bem, o convento começou a ser construído em 1608 e é uma das construções mais antigas do Rio. O convento é aberto à visitação e é possível confessar-se lá sem hora marcada.

Passeio de 2007


Em 2007 eu “dei de presente” o Roteiro Noturno no Centro do Rio a pé para o Rômulo. Nos inscrevi para comemorar algum aniversário de namoro. E lá fomos nós. Acho que o roteiro se mantém o mesmo, só que começamos pelo que é, agora, o final.


A escadaria Selaron (fotos de Fernanda Petelinkar)



A escadaria Selaron (foto de Marina Favato)

Na época, escrevi para a Revista Paradoxo uma matéria sobre a experiência. Transcrevo abaixo a matéria “Lado familiar”, publicada lá em março de 2007. 

Já dizia Clifford Geertz: é preciso estranhar o familiar, e familiarizar-se com o estranho. Pois foi com esse pensamento que, em uma noite de quinta-feira, parti rumo à Lapa, o bairro boêmio do Rio. No entanto, não fui tomar cerveja barata em garrafa em um boteco, e muito menos a uma roda de samba em uma das casas badaladas da área. Naquela quinta, juntei-me a cerca de 60 pessoas para percorrer em três horas um bairro e séculos de história. 

Eu e os outros cariocas – sim, os habitantes da beleza e do caos eram maioria – fomos guiados pelo professor de geografia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, João Baptista Ferreira de Mello. Ele coordena há 3 anos o projeto Roteiros Geográficos do Rio, programa que oferece passeios a pé em diferentes roteiros da cidade.
Em franca revitalização, a Lapa é conhecida por ser abrigo para diversas tribos, sempre sem confrontação. Por lá hippies, neo-punks, forrozeiros, cabrochas, turistas e o novo cafa circulam com naturalidade até mesmo um pouco blasé. Sempre pensei que quase nada chamasse atenção no território, mas nosso grupo chamou.  Com seu líder à frente, e pessoas de todas as idades com câmeras e bloquinhos à mão, mas sem cara de estrangeiros desavisados sobre a violência da cidade. Não demorou muito para gaiatos bêbados pegarem baldes e vassouras e fingirem ser mais um bloco a desfilar a uma semana do carnaval. Prostitutas paradas na esquina querem saber para o funeral de quem segue o cortejo. Forrozeiros à espera da abertura da boate se espantam com os “turistas” àquela hora. 
_todas as temporalidade lado a lado
O início do roteiro é na divisa da Lapa com a Glória. Já ali temos uma amostra de como será nossa excursão: uma ida e vinda a diversas épocas. João Baptista explica que a cidade abriga marcas de tempos diferentes lado a lado. Aqui temos o Passeio Público, construído para dar oportunidade às mulheres brancas da época colonial para saírem de suas casas. Naquele tempo, elas só colocavam suas carinhas na rua em três ocasiões: batizado, casamento e funeral. Toda a região surgiu de um dos muitos aterros da cidade – descobrimos durante o passeio que o Rio tem muito mais de aterro que apenas o do Flamengo.
A principal rua da Lapa, a Mem de Sá, nasceu em 1905, durante a reforma que o prefeito Pereira Passos promoveu na cidade, para dar-lhe um ar mais europeu. Daí vem o primeiro momento de esplendor do bairro, que segue até 1930, com a boemia e seus personagens famosos como o malandro e o travesti Madame Satã, que teve sua trajetória contada em filme.
A rua acima, Joaquim Silva, hoje é uma área deteriorada, mas já foi ponto residencial nobre, só perdendo para os casarões luxuosos do bairro situado um pouco mais acima, Santa Tereza. Quando se pára para olhar com atenção, é possível ver a beleza dos sobrados por trás das pichações que cobrem quase todas as edificações da rua. A Rua do Riachuelo, antiga Mata Cavalos, também ainda mostra sinais do período de abandono que a Lapa viveu até pouco. O bairro virou sinal de prostituição e crime a partir da década de 50. É essa a época retratada na “Ópera do Malandro”, de Chico Buarque: “Eu fui à Lapa e perdi a viagem, que aquela tal malandragem não existe mais…”. 
Só nos anos 80, com um processo de “higienização” promovido pelo governo de Leonel Brizola, o bairro ressurge com a instalação da casa de shows Circo Voador, um dos ícones do rock da década. O Asa Branca, hoje point de forrozeiros, foi inaugurado nessa época, em 1982, com a presença até de um rei, Juan Carlos, da Espanha. E a história segue com mais um período de ostracismo na década de 90. 
A mais recente toporrevitalização da Lapa aconteceu espontaneamente. A vinda de antiquários para a Rua do Lavradio foi trazendo gente. O Circo e a Fundição Progresso atraíram a abertura de mais casas noturnas, muitas com entrada a preços altos, voltadas a turistas estrangeiros que querem conhecer um Brasil mais “de raiz”, e os botecos com cerveja barata garantem o público fiel. Hoje, a Lapa está na moda. Há muitas construções em processo de restauração e até mesmo um residencial de luxo sendo construído ali. 
_o que transcende sua função
“Símbolo é aquilo que transcede sua função”, diz João Baptista em frente aos famosos Arcos da Lapa. Construído em 1750 para levar água do Rio da Carioca até o largo que recebeu este mesmo nome, os Arcos são símbolos não só da Lapa, mas do Rio. Outro ícone é a escadaria Selaron, que já apareceu em clipes do Snoopy Dog e em matérias na revista “National Geographic”. A idéia de seu criador, o artista plástico que dá nome ao monumento, era usar somente azulejos verde e amarelo, mas com o tempo ele foi abrindo exceções. A obra é aberta, Selaron está sempre substituindo peças e por isso a escada que você vê nunca é a mesma. 
A vocação para a boemia pode ser justificada ali pertinho. A Adega Flor de Coimbra é a mais antiga do Brasil, mas é mais conhecida por uma peculiaridade: lá dentro é proibido beijar. Isso mesmo. O garçom Jair, há 11 anos na casa, diz, para espanto do grupo, que o local é disputado no Dia dos namorados, mas dá a dica: “Selinho pode”. E questiona a repórter: “afinal a senhorita não daria um beijo escandaloso em local público, né?”.
O passeio sai da Lapa pela Visconde do Rio Branco. A rua tem alguns hotéis de alta rotatividade que atendiam unicamente casais homossexuais até a primeira gestão do prefeito Cesar Maia, que proibiu a discriminação. Discriminação que as meninas da Daspu, em frente à Praça Tiradentes, venceram com sua grife de nome em referência à loja de luxo paulista.
Mas a Praça, que abriga locais de diversão tradicionais como a Estudantina Gafieira e o Teatro João Caetano, em breve não terá só esse tipo de hotel. A rede Ibis, espanhola, constrói um hotel ali apostando na expansão da Lapa. Ela não é a única a acreditar nisso. Os comerciantes comemoram a saída do Instituto Médico Legal da área, o que pode levar os boêmios a ampliarem seus domínios em direção à Cidade Nova.
Aliás, muita gente não sabe o porquê do nome Cidade Nova à região que abriga a administração da cidade. É que originalmente o local era mangue e ponto das meninas de vida fácil. Elas foram expulsas em direção à Zona Norte, fundando a Vila Mimosa, com a realização de mais um aterro, onde foi construída a prefeitura. Mas o carioca não esqueceu a vocação da área e apelidou o principal prédio da administração municipal de Piranhão, e seus anexos, de Cafetão e Penteadeira de Puta, este por ter seu exterior espelhado. 
O roteiro, que inclui ainda o Largo de São Francisco, a Rua do Ouvidor e o Largo da Carioca, tem boas surpresas, como a adoção recente de iluminação especial para alguns pontos turísticos, como o imponente Real Gabinete Português de Leitura, e uma das mais bonitas fachadas da cidade: um sobrado com vitrais que imitam o rabo de um pavão e que passa despercebido na correria diária do Saara.
O passeio termina na Cinelândia e suas construções à francesa – o Teatro Municipal, o Museu Nacional de Belas Artes e a Biblioteca Nacional – que coroam a atual Avenida Rio Branco, construída para ser a Avenida Central da nova cidade à la Paris. Por volta de 1h30 da manhã todos estão cansados, mas ainda fazem perguntas ao professor e seus bolsistas. Aos poucos, o grupo se dispersa, mas as pessoas seguem olhando tudo mais devagar, e com especial atenção ao alto das construções, como quem agora sabe que pode estar perdendo uma bela parte da história da cidade em que vive.


Legal ver que na época a Lapa estava em franca revitalização e que o processo foi à frente. O condomínio de luxo que estava sendo construído é o Cores da Lapa, super valorizado atualmente, e o hotel era o Ibis, que também vai bem, obrigada. 

Recomendamos!

Ufa, que alívio em corrigir essa falha tão grande. O Roteiros Geográficos do Rio é um programa indicadíssimo por nós. Um passeio gostoso para quem vier ao Rio e quiser conhecer a cidade guiado por alguém de conteúdo e bom humor e também para quem sempre morou aqui e quer saber um pouco mais sobre a história que o cerca. 

Apesar de ser a pé, os passeios não são tão puxados, especialmente fora do verão. Mas, lembre-se, use um calçado confortável e leve água. E, claro, a máquina fotográfica, pois há muito para se registrar.

Fiquei louca para fazer um dos roteiros novos! Se conseguir um tempinho para me inscrever, aviso a vocês.

Serviço

Roteiros Geográficos do Rio
As inscrições para os passeios são grátis.

Blog: http://roteirosgeorio.wordpress.com

Email: roteirosgeorio@uol.com.br

Twitter: @roteirosgeorio 

Telefone (21) 8871-7238

Fotos: Já que temos muitas noivas leitoras, procuramos fotos relacionadas a casamento

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Publicado por Jackie Mota

Uso minha formação em jornalismo e minha experiência organizando as viagens da minha própria família para escrever posts didáticos e detalhados para poupar o SEU tempo. Nos meus textos você encontra informações práticas apuradas com responsabilidade e organizadas de acordo com as necessidades do viajante. Referências histórias e análises sobre a política e impactos do turismo também estão presentes no meu trabalho para que você viaje bem informado, seguro e consciente - sou especialista em Relações Internacionais e Mestre em Estudos Estratégicos da Segurança Internacional.

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