A melhor viagem

por Jackie Mota 17.maio.2013

Ontem eu estava no twitter (segue lá), quando a Emilia tuitou um link de um texto escrito pela Adriana Setti sobre uma ~polêmica~: a diferença entre viajante e turista. Na hora me lembrei de um texto da Silvia sobre o mesmo assunto, e enviei para Emilia, que me retornou com esse link aqui, mais antigo, de 2009, sobre o mesmo tema. E como eu já tinha reclamado ontem mesmo de blogs que se acham “donos” de um determinado destino (#euviprimeiro #émeu) e hoje está chovendo no Rio, em vez de passear com Maquiavel acabei aqui escrevendo esse post.

Sobre viajar x turistar tenho pouco a acrescentar. Acredito que tudo é válido quando dá prazer a quem o faz. E se a pessoa se diverte mesmo é indo pro mesmo lugar todo ano, viajando empacotado e fazendo city tour ou se por outro lado se diverte viajando de carona, fazendo couchsurf e trabalho voluntário em um local, pois que seja. Que sejam felizes. Desde que ninguém queira se intrometer e me obrigar a fazer o que ele quer, me impôr um “tem que”, para mim está tudo bem.

Claro que eu tenho o meu ideal de “ser que viaja” e que pode ser resumido na frase do antropólogo Clifford Geertz (que usei na minha monografia, uma tentativa de descrição densa): é preciso transformar o exótico em familiar e o familiar em exótico. Basicamente estar aberto pra aceitar e admirar as culturas mais singulares e diferentes da sua e ao mesmo tempo atento pra encontrar idiossincrasias e beleza na visão cotidiana. Aquelas coisas super simples de serem postas em uma frase, mas que, para transformar em prática, levam uma vida. Mas esse é o meu ideal.

Bom, mas então partamos para o que eu queria mesmo abordar. O porquê dessa disputa entre viajante e turista #sentaquelavemhistoria. Acho que essa história só existe porque algumas pessoas querem sempre se arrogar o título de o melhor da sua categoria (no nosso caso, de viajante). Tem gente que não viaja, coleciona uma série de melhores. Tem o melhor roteiro, ficou no melhor hotel, comeu a melhor refeição. Não adianta nem falar que você fez algo muito bacana no mesmo lugar: a experiência dele é a melhor do universo para todo mundo em todo o sempre, amém.

Quer comprovar? Faz aí uma experiência. Entre em qualquer blog de viagem e busque pela palavra melhor. Facinho facinho aposto que você vai encontrar um dos maiores enganos na aplicação da língua portuguesa: o mau uso do comparativo de superioridade. É um tal de “o melhor pastel da cidade”, “a melhor balada”, “o melhor roteiro para conhecer o país tal”. Tem até o “melhor blog de viagens brasileiro”. Te juro! Mas aí você pergunta: como assim o melhor dessa categoria se você não conhece/testou/provou todos, amiguinho? Afinal se é um comparativo, precisa ter outros de sua classe como parâmetro, certo? Sim. E precisava também ter alguns critérios, afinal não é possível que uma única pessoa tenha todo o conhecimento sobre gastronomia, turismo, arquitetura, ergonomia e consiga julgar tudo com base em conhecimento técnico.

Não, não é. É que o blogueiro que aplica o título de o melhor a qualquer programa de sua viagem não percebe que ele não está comparando a experiência com outras semelhantes ou de forma técnica, mas apenas contrapondo-a à sua experiência pessoal. Se os blogueiros de viagem não ansiassem tanto em ser os melhores viajantes bastava trocar para “o melhor pastel que eu comi”, “a melhor balada a que já fui” etc. Neste caso – vejam vocês, existem essas ocasiões – se nós (e eu me incluo, viu, me incluo!) tentássemos olhar mais pros nossos umbigos e perceber que estamos falando da NOSSA experiência em vez de tentar colocar nosso umbigo no centro do mundo viajandístico e criar uma universalidade a partir do que só a gente viveu, estaríamos contribuindo pra uma blogosfera mais verdadeira, colaborativa e… menos chata!

Ah, mas então a responsabilidade dessa tendência arrogante é só dos blogueiros? Não, não só. Certamente muitos leitores utilizam em suas pesquisas no Google a “melhor pizza” ou o “melhor roteiro para 5 dias na capital da Birmânia”, interessados em dicas desse tipo. Afinal, a pessoa quer mesmo a melhor dica. Então a verdade é que a responsabilidade é dos dois, blogueiros e leitores, em não perceberem que não existe o melhor sempre pra todos. Viajante ou turista, como você queira chamar, são seres humanos e, por isso, são únicos. Ou nem tanto, afinal a gente mesmo é múltiplo. Tem vezes em que queremos viajar de um jeito, vezes em que queremos de outro. Normal. E humano, muito humano.

Ah, então você vai dizer que por ser único só eu posso saber o que é melhor pra minha viagem? Sim. Então não adianta ler blogs com experiências dos outros? Eu nunca diria isso! Não pensem vocês que vou defender que não se deva ler vários blogs de viagem porque está todo mundo querendo vender que o seu jeito de viajar  é melhor ou, como já vi proporem por aí, se desconectar e ignorar totalmente as dicas de aplicativos como o Foursquare (que eu amo!). Não, eu não acho isso. O que eu realmente acho é que a internet é só um instrumento e cabe a você saber usá-lo. Os blogs estão aí relatando experiências diversas e você deve saber usá-los (e pros blogueiros: os leitores estão aí buscando experiências diversas e você deve saber falar para eles).

E olha que de ler experiências diferentes eu entendo porque eu fui a menina que matava o recreio pra ficar lendo escondida no colégio e hoje eu sou a pessoa que não gosta de praia, um destino querido e amado por 99% dos leitores de blogs de viagem (Data Jackie informa). Mas não é por isso que só vou ler a experiência de quem vai a todos os museus e ignora praia. Se eu tivesse sido fechada assim eu não teria lido no blog do amante da costa brasileira, Ricardo Freire, sobre uma das poucas praias que eu amei na minha vida – a praia do Patacho, lá em Alagoas, só pra citar um exemplo.

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Imagina só que pode existir um programa/destino/produto que você vai amar, mas nunca ouviu falar e viver fechado em si mesmo exclui essa possibilidade. Bom, eu não quero que isso aconteça comigo, nem com você. E é por isso que exponho aqui no Viaje Sim! as nossas experiências, dizendo quais foram as melhores para a gente, naquela viagem e deixando que cada um decida se aquilo vai ser bom ou não para a sua viagem. Porque aí vai ter gente que vai se identificar e vai querer fazer igualzinho, igualzinho e vai adorar. E vai ter gente que vai pensar “Deusolivre fazer essa chatice” e não vai aceitar quando propuserem aquele programa para ela, porque não se identificou. E, nos expondo aqui, ajudamos os dois a viajarem melhor. Melhor que o quê? Melhor do que viajariam sem nenhuma informação. Melhor do que com o peso de “ter que fazer” “o “melhor” porque alguém – o infalível melhor viajante – disse que era assim que ele devia fazer.

É viajando que se descobre a sua melhor viagem, não tem jeito. É fazendo programa furado que se descobre o programa legal. Por comparação. Hoje o Brasil tem muitos, muitos blogs de viagem, os mais diferentes entre si. Essa diversidade é uma riqueza. Aproveite-a, leia, viaje e compare. E você, blogueiro, contribua para uma blogosfera mais diversa e menos competitiva.

Eu espero, sinceramente, ter cada vez mais o olhar que se familiariza com o exótico e torna exótico o familiar. E desejo, sinceramente, que você viaje muito (se você gostar de viajar muito) e que tenha muito material para usar em comparações, caso queria. Eu desejo mesmo é que você e eu possamos aplicar, com propriedade e muitas vezes, ano após ano, o comparativo de superioridade em uma frase muito especial: eu tive a melhor viagem da minha vida – até hoje.

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Texto Jackie; Foto: Rômulo, na Praia do Patacho

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Publicado por Jackie Mota

Uso minha formação em jornalismo e minha experiência organizando as viagens da minha própria família para escrever posts didáticos e detalhados para poupar o SEU tempo. Nos meus textos você encontra informações práticas apuradas com responsabilidade e organizadas de acordo com as necessidades do viajante. Referências histórias e análises sobre a política e impactos do turismo também estão presentes no meu trabalho para que você viaje bem informado, seguro e consciente - sou especialista em Relações Internacionais e Mestre em Estudos Estratégicos da Segurança Internacional.

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Comentários

  1. 15 jun 2013

    Escrevo agora da suite do hotel Rosario em La Paz, e procurando informaçoes sobre Copacabana e lago titicaca ,achei esse texto excelente.Parabens

    • 16 jun 2013

      Olá Claudia, que bacana! Muito obrigada pelo comentário.
      Abs,

  2. Gabriela
    01 jun 2013

    Essa obrigação do MELHOR e TEM QUE ir/ver/comer/fazer é tão cansativo! Pesquisar dicas e experiências é legal, mas precisamos criar nossos próprios MELHOR e TEM QUE, assim como “descobrir” coisas novas e nos surpreender. Senão não precisarmos nem ir conhecer nada… se as pessoas já quiserem ir com tudo desenhado!

  3. 19 maio 2013

    Modestos são os portugueses, que deixam margem para dúvida. Vi em uma lanchonete: “Provavelmente a melhor francesinha do Douro” e outras chamadas como essas pelo país. 😉

    Sobre o texto, você já sabe que concordo, né? 🙂

    Beijos!

    • 19 maio 2013

      Ai, caí de amores com essa frase “provavelmente a melhor”. Tão certos eles!
      POis pe, tenho pensado muito, ainda mais depois das nossas conversas =)
      beijos!

  4. Moema
    18 maio 2013

    Concordo plenamente, Jackie! Eu já tinha percebido que vc aqui deixa bem claro que todas as opiniões referem-se ao SEU perfil de viajante,que pode não ser o nosso. Inclusive, eu acho que eu nem tenho exatamente o mesmo perfil de vcs, mas eu adoro o Viaje Sim! e já aproveitei muito bem as suas dicas, adaptando ao meu perfil. Nós, leitores, também precisamos ter essa visão e saber distinguir que o que é bom pra quem escreve pode não ser bom pra quem lê. Nós temos que saber filtrar o que a blogosfera viajante nos oferece. Bjs!

    • 18 maio 2013

      Oi querida, fico muito feliz com seu comentário. Vc está sempre por aqui e isso deixa a gente feliz, saber que tem gente que usar o blog de verdade.
      Obrigada!
      bjs,

  5. 18 maio 2013

    Excelente post. Acho uma babaquice diferenciar viajante de turista, principalmente com um tom pejorativo para o segundo. Vamos ser felizes, fazer o que der na telha. É tão difícil assim entender que cada um faz o que quer, do jeito qur achar melhor para SI mesmo.
    Abração e um bom final de semana

    • 18 maio 2013

      Obrigada, Wesley.
      Obrigada pelo comentário e bom fim de semana para você também.
      Abs,

  6. 18 maio 2013

    Fantástico o seu texto, Jackie!

    Beijão,

    Jana.

    • 18 maio 2013

      Obrigada, Jana. Pelo bom uso do poruguês e blogs mais colaborativos =)
      bjs,

  7. Michelle
    17 maio 2013

    Que lindo, adorei!

    E ainda tem aqueles que mesmo que tenha lido que tal programa “é furada” resolvem ver com os próprios olhos e às vezes se arrependem, mas também pode ser uma agradável surpresa.
    Mas você resumiu tudo muito bem!

    • 17 maio 2013

      Que bom que gostou, Michele.
      sim, é verdade. Pq por exemplo eu descreveria ficar tomando sol um dia inteiro sem nada pra fazer como roubada enquanto outras pessoas sonham com isso, ne? rs O importante é saber usar esse arsenal incrível de informação que são os blogs.
      bjs!

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