A Rússia em um livro: O Rei da Vodca

Os livros foram meus primeiros meios de viagem, por isso, ainda hoje, quando tenho uma viagem agendada procuro viajar para o meu destino através da leitura. Viajar para a Rússia através da literatura não é difícil, já que a produção literária do país é renomada e uma de suas obras mais famosas até figura em minha lista de preferidos – Crime e Castigo, de Dostoiévski.

Como temos uma viagem agendada para a Rússia em dezembro, retomei a leitura de Guerra e Paz, de Tólstoi, que já tinha começado e largado no meio algumas vezes (hábito que eu evito muito, mas que acontece algumas vezes). Ainda estava no primeiro dos 4 volumes de Guerra e Paz quando meu fotógrafo querido, o Carlos Leandro, me disse ter lido uma biografia do criador da vodca Smirnoff que era muito boa e que tinha como pano de fundo a história do país. Fui na dica do Carlos e comprei o livro. E aqui estou para recomendá-lo!

O rei da vodca livro rússia

A obra é “O Rei da Vodca: A saga da família Smirnov e a construção de um império” da jornalista norte-americana Linda Himelstein. O livro reconstrói a história da famosa marca Smirnoff, que é a pronúncia francesa do nome, desde sua fundação por Piotr Arsenieyevich Smirnov no século XIX até dias recentes quando os herdeiros da família lutavam nos tribunais para retomar a marca e seus direitos.

Foi cobrindo um destes processos como jornalista da área de negócios – ela trabalhou na Business Week – que Linda conheceu a história dos Smirnov. Encantada, ela largou tudo e dedicou 4 anos de pesquisas a documentos oficiais e memórias dos familiares e conhecidos para recriar essa saga de forma empolgante. Como a autora coloca no prefácio, os documentos deixaram algumas lacunas na história, então ela tomou a liberdade de especular o que deve ter acontecido com base em sua análise do caráter dos personagens. E, sem dúvida, Linda julgava Piotr um grande homem.

É impossível não perceber (e compartilhar) da comoção de Linda por seus personagens. Eu quase posso vê-la empolgada ao descobrir o personagem Piotr, nascido servo na Rússia em 1831 e tornando-se ao longo de sua vida um empresário respeitado, utilizando-se, meio sem saber, de um protótipo de técnicas marketing. A autora escreve que Piotr teve “uma vida inesperada, construída sobre a pura determinação e uma inquebrantável noção de objetivo”. Não é uma descrição muito diferente do típico grande personagem de sagas cinematográficas norte-americanas, do self made man. E essa visão de Linda sobre Piotr se confirma mais à frente, quando ela o compara a homens que, como indivíduos, foram cruciais para sedimentar as modernas bases do capitalismo dos EUA e se tornaram lendas nacionais, como Rockfeller e Carnegie.

Mas afinal, como não considerar Piotr, um homem de retidão moral e ambições comerciais tão fortes, um perfeito personagem para uma saga do “sonho americano”? Ou melhor: um perfeito personagem deste tipo com um grande plus: ambientado em um cenário distante e exótico, com personagens tão extravagantes como czares e obstáculos tão mal vistos por nós, ocidentais modernos, como uma sociedade de classes e costumes sociais rígidos? É mesmo difícil não passar grande parte do livro torcendo por Piotr como torcemos para nossos heróis no clássico filme hollywoodiano. Desejei por muitas e muita páginas um happy end.

O rei da vodca livro rússia

Como você que não faltou à aula de história bem sabe, entre o século XIX e XX a Rússia passou por grandes revoluções. Mas no livro de Linda não são só esses momentos de quebra abrupta que têm lugar como determinantes da saga Smirnov. Mudanças mais sutis como novos costumes, novas influências culturais, mas principalmente, a indecisão russa quanto ao caminho a seguir, as idas e vindas, a posição titubeante na encruzilhada entre tradição e progresso causam impactos decisivos sobre o clã Smirnov.

Quando Piort inicia seu negócio, por exemplo, sob o governo do czar Alexandre II, há um ambiente progressista e promotor da busca pelo desenvolvimento industrial e comercial no país. É assim que ele emigra de sua pequena aldeia para Moscou, seguindo o exemplo de um tio, e, através do trabalho na fabricação e venda de vodca, consegue comprar sua liberdade.

Já estabelecido, Smirnov enfrentará o retrocesso no apoio aos grandes comerciantes de um país aferrado à manutenção de velhas práticas e do centralismo econômico, com um Estado que taxa de forma acintosa sua produção e busca tomar para si o monopólio da produção e venda da bebida. A família Smirnov enfrentaria, ainda, os revolucionários e as consequências desastrosas para renomados comerciantes e bem sucedidos capitalistas em uma sociedade comunista violentamente repressora.

O livro de Linda, além de nos trazer um personagem central forte, cuja sombra permanece presente mesmo após sua morte, conta não apenas a “grande história” desse século, mas também a história do cotidiano e assim é possível aprender um pouco sobre o dia a dia e os costumes dos russos. Sem dúvida é um livro rico para quem quer conhecer um pouco mais sobre a Rússia.

É interessante, por exemplo, o modo como a autora conduz a narrativa tendo não apenas os Smirnov, mas o relacionamento dos russos com a vodca como personagens centrais. Logo no início do livro a autora me conquistou ao relatar que Pior havia enfrentado ao longo de sua vida inúmeros obstáculos, entre eles o movimento proibicionista. Minha dissertação de mestrado foi sobre narcotráfico e li bastante sobre o movimento proibicionista nos EUA e um pouco da trajetória européia, mas não conhecia nada sobre ele na Rússia. Para minha surpresa, logo nas primeira páginas me deparei com o Tosltói, cuja obra eu havia abandonado para ler “O Rei da Vodca”, pois ele foi, vejam só, foi um grande entusiasta do proibicionismo. Para mim também foi interessante conhecer o caminho que a vodca trilhou de bebida cotidiana russa, sem status nos círculos internacionais, para uma das mais consumidas bebidas no mundo ocidental e componente fundamental de bebidas super populares como o martini.

O livro de linda também foi bastante visual para mim e, ao longo de toda a obra, um dos cenários que se mantém presente é a casa da rua Pyatnitskaya, que é chamada no livro de Casa da Ponte de Ferro. Depois de terminar o livro, quando bate aquela saudade dos personagens, usei o Google Maps e dei uma espiadinha na casa hoje e olha ela aí abaixo. Já coloquei no meu roteiro para dar uma olhadinha pessoalmente quando estivermos em Moscou.

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Minha única crítica ao livro foi uma falta de revisão final no texto traduzido, pois encontrei vários ferrinhos de digitação e português. Mas nada que abale essa história empolgante e ao mesmo tempo instrutiva.

:: O rei da vodca: A saga da família Smirnov e a construção de um império (The King of Vodka – The story of Pyotr Smirnov and the Upheaval of an Empire)Linda Himelstein (Tradução: Ana Beatriz Duarte). Editora Zahar. 354 páginas

Update: Em outubro/2015, encontrei na Saraiva por R$ 7,90 a edição impressa e por R$ 9,90 o ebook; na Amazon, o ebook Kindle também por R$ 9,90 e a versão impressa por R$ 19,59.

Cresceu no interior de Minas, sempre cercada de livros. Desde criança tem uma alma antiga. Encontrou no Rio o amor da sua vida, com quem ama viajar e se casar (again and again). É mãe de dois buldogues, Maquiavel e Foucault, jornalista e mestre em Estudos Estratégicos.

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