O porquê de eu amar viajar

É claro, que existem muitas razões para a gente amar viajar como sair da rotina, conhecer um lugar novo, visitar amigos e parentes etc. Mas eu tenho um motivo específico, e bem importante, pelo qual eu amo tanto viajar. E esse motivo é: quando eu viajo, eu sou exatamente o eu que eu queria ser

dépaysemente amo viajar1 No sol, morta de pedalar, com lenço, descabelada e ainda sorrindo: foi em uma viagem

Quando eu viajo, eu consigo dormir mesmo que tenha uma boate no térreo do hotel, uma rã no quarto ou mesmo que eu esteja sacudindo por uma estrada boliviana a mil metros de altitude e o ônibus, sem ar-condicionado, não abra as janelas (true story). Em casa, mesmo com minha cama ultra confortável, eu preciso de silêncio não só na casa como na rua, um ritual de banheiro-água-acertar o despertador do celular que pode levar uma boa fração de hora, TV ligada, som do ar-condicionado/ventilador, água na cabeceira, pijaminha macio e ainda muitos outros detalhes. E ainda assim vou rolar na cama por pelo menos 2 horas antes de pegar no sono.

Quando eu viajo, acordo cedo no primeiro toque do celular, mesmo que tenha ido dormir bêbada e tarde. Caminho o dia todo e caminho mesmo, quilômetros. Corro entre uma atração e outra. Tenho programação para o dia e para a noite. Enfrento fila. Faço trilhas, canoagem, esquio, ando de bicicleta. Quando estou em casa eu fico cansada. Eu deixo de fazer coisas, encontrar gente por estar cansada. Se vejo 5 pessoas na fila do mercado fico sem comprar o que queria. Quando eu estou em casa eu pego táxi para ir a lugares no meu bairro.

Quando eu viajo eu erro o endereço do que queria visitar. Vou a locais longe do hotel só para descobrir que estão fechados. Pego chuva com um sapato que não pode molhar. Suo debaixo de blusas quentes porque a previsão dizia que faria frio. Depois de uma longa espera vejo que a comida do restaurante baratinho da minha esquina é muito melhor que a de um restaurante must see caríssimo. E acho tudo isso incrível, interessante, enriquecedor, um aprendizado, tópico de postagem no facebook seguido de #hahaha e não #mimimi. Quando estou em casa se pego o ônibus errado encarno a própria Hardy.

Quando eu viajo eu aceito jogar fora páginas de roteiro que preparei se o marido me diz “ah, vamos apenas bater perna por aí” (especialmente se ele sorri). Sou capaz de deixar pra lá um passeio já pago numa cidade do litoral peruano se ele me diz “vamos logo pra Lima, a gente passa a noite bebendo pisco sauer” sem achar que estou sendo fútil ou inculta. Se eu esqueço o carregador universal eu compro outro no freeshop. Quando eu estou em casa eu faço listas. Afazeres do dia; da semana; rotina de leituras. E se eu não consigo fazer o que planejei acho que o dia foi ruim e eu uma incompetente. Nem sempre mudo a programação para fazer algo com ele. Se abro mão do livro para ver novela me culpo por ser superficial. Se acaba o leite eu choro ao som de All by myself (no chuveiro) pensando em como decepcionei minha mãe que jamais deixaria tal falha na condução do lar.

Quando eu viajo eu pesquiso sobre coisas que eu sei, a priori, que não me interessam. Eu provo comidas que eu acho que não vou gostar. Eu experimento roupas que sei que não vão ficar boas. Eu aceito ir às compras. Quando eu estou em casa, eu mantenho meu estilo, no prato e no espelho. E se alguém me diz que o shopping está em liquidação eu até desisto de ir comprar o livro que preciso, só para não andar pelos corredores cheios.

Quando eu viajo e marido diz “vamos logo que o café se encerra em dez minutos” eu saio correndo sem me maquiar. Quando eu viajo eu uso brincos diferentes, até cordão e pulseiras e aquele lenço que já tive de lavar porque tinha cheiro de mofo. Quando estou em casa eu não posso sair rapidinho para a sessão de cinema que começa em 10 minutos lá na esquina porque preciso me arrumar. Quando estou em casa brinco de personagem de desenho animado e uso o mesmo visual dia após dia.

Quando eu viajo, eu rio mais, eu sou mais carinhosa, eu faço ligações entre as coisas que já vi, estudei e o que estou conhecendo, eu lembro de pessoas queridas. Quando eu viajo eu sou uma pessoa fácil, maleável, com disposição, que aceita as mudanças de bom grado, eu provo coisas novas, aceito fazer programas que não curto tanto para acompanhar (e agradar quem eu amo). Quando eu viajo eu não me julgo isso ou aquilo. Eu faço o que quero e o que dá, sem neuras. Eu sou prática. Quando viajo não ligo para a minha aparência a ponto de perder algo por isso e me importo com ela o bastante para usar acessórios.

Quando eu viajo eu sou uma pessoa que eu gosto de ter por perto. Eu sou quem eu queria ser 365 dias por ano. E é por tudo isso que eu amo viajar. É também porque aprendi, viajando, que não preciso de todas as condições perfeitas para ser quem eu quero que escolhi a opção  mais difícil, menos prática. Eu não quero viajar 365 dias por ano. Eu quero tentar, em uns 300 dias por ano (2 meses de viagens me bastam!), – e sem colocar em uma lista de tarefas – aprender a ser o meu eu viajante, aqui mesmo, em casa.

Cresceu no interior de Minas, sempre cercada de livros. Desde criança tem uma alma antiga. Encontrou no Rio o amor da sua vida, com quem ama viajar e se casar (again and again). É mãe de dois buldogues, Maquiavel e Foucault, jornalista e mestre em Estudos Estratégicos.

8 Comments on O porquê de eu amar viajar

  1. Érica França
    14 de julho de 2014 at 17:33 (5 anos ago)

    Se conseguir descobrir como ser seu melhor eu em casa, pode me contar? Porque preciso de terapia para isso. Também adoro o “eu mesma” quando estou viajando. Mil vezes melhor do que a “eu” de casa…

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    • Jackie Mota
      17 de julho de 2014 at 0:36 (5 anos ago)

      Oi Erica, estou tentando! Acho que o negócio é aprendermos a dar valor à nossa vida em casa, na rotina. Tenho buscado aproveitar mais meu tempo aqui, mantendo aquele mesmo pensamento que temos quando viajamos de “temos que aproveitar muito porque é um tempo especial e curto”. Afinal, a gente não sabe até quando fica nesse mundo né? E nada mais especial que os “nossos”=)
      beijos,

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  2. Patrícia
    21 de janeiro de 2014 at 17:17 (5 anos ago)

    Lindo o seu texto!
    Eu me reconheci em muitos momentos… pque tbm amo viajar! Se precisar vender o carro p/ fazer uma viagem, eu topo!
    E me sinto muito livre, muito feliz e uma versão melhor de mim mesma quando estou viajando.
    Bj e que novas inspitações surjam em sua próxima viagem:)

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  3. Carol Candido
    23 de outubro de 2013 at 23:50 (6 anos ago)

    Amei o texto!!! Já acompanho o Viaje sim! Com certeza vou acompanhar o Depaysement…. Beijos

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    • Jackie Mota
      24 de outubro de 2013 at 0:08 (6 anos ago)

      Fico feliz, Carol!
      bjs,

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  4. Tatiane Ramos
    23 de outubro de 2013 at 1:54 (6 anos ago)

    Putz!!!
    Você deveria escrever um livro.
    Quanta facilidade e quanta riqueza ao se expressar.
    amei!!!
    beijinhos.

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    • Jackie Mota
      23 de outubro de 2013 at 11:45 (6 anos ago)

      Oi Tati, que bom que gostou do texto =)
      bjs,

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