Um certo dia resolvi mudar e fazer tudo o que eu queria fazer

Siem Reap, Cambodia

Um dia eu estava lendo um blog de uma pessoa que admirava (no passado, mesmo) e ela tinha postado um lista de coisas que queria fazer. Era uma lista de coisas que ela pretendia fazer, um dia, quem sabe, quando desse, o tempo sobrasse, o dinheiro aparecesse. Parei um pouquinho para ler a lista e percebi que as coisas que essa pessoa sonhava fazer eram, em sua maioria, coisas eu já tinha feito várias vezes ou simplesmente poderia fazer naquele exato momento, se quisesse.

Então fui tomada por um medo enorme. O medo de ser uma pessoa que desperdiça sua vida e, principalmente, que desperdiça suas benções e sua sorte. O medo de ser alguém que não percebe a riqueza que tem em suas mãos. De estar taking the life for granted.

Pouco depois desse onda de medo, comecei a meditar. Ou tentar meditar, pelo menos. Poderia dizer que avancei muito pouco desde então, mas, na verdade, acredito ter avançado muito, já que continuo firme nas tentativas e, não desistir, já é sempre uma grande vitória. Meu interesse pela meditação tinha um objetivo bem utilitário de início. Eu só queria lutar um pouco contra a ansiedade. Dizem que ansiedade é a presença demasiada de futuro em nossas mentes. Então, achei que me ajudaria a valorizar o que tenho colocar cada tempo em seu lugar. Mas percebi logo que meditar me faz bem maiores.

Tudo isso foi pouco tempo antes de eu viajar (passamos um mês entre EUA e o Sudeste Asiático). E, claro, é muito fácil perceber o quanto um momento é único quando se está viajando. O desafio é fazer disso a rotina e não aquele melhor mês do ano. O desafio é perceber isso na sala de casa e não a bordo de um cruzeiro em Ha Long Bay. O desafio é fazer isso andando pelo bairro e não entre templos em Bagan. E foi esse desafio que abracei desde que voltamos.

Durante nossa viagem acabamos encontrando o livro “Wherever you go, there you are – Mindfulness meditation in everyday life”, do Jon Kabat-Zinn. O autor é uma referência nesse tipo de meditação e no uso dela para redução do estresse e dores crônicas e descreve a mindful meditation como “prestar atenção de um modo particular; de propósito, no momento presente, e sem julgamentos”. Eu estou gostando muito do livro e dos exercícios que ele propõe – além do livro dá para baixar arquivos de áudio para exercícios guiados. Estou lendo bem devagar, num tempo novo para mim, para aproveitar tudo o que ele pode me ensinar. É tudo muito, muito simples. E, por isso mesmo, muito difícil. Mas o processo todo é maravilhoso e já nos faz viver de uma forma completamente nova: integralmente no presente, conscientes e com uma aceitação de nós mesmos.

Então, tenho tentado. Tenho tentado não deixar para amanhã o carinho, o eu te amo. O chamego no sofá com meus focinhos gelados. E deixar no para nunca aquela pessoa chata sem semancol. Assim como tenho tentado deixar no para nunca os autojulgamentos. Tenho tentado abraçar as oportunidades e viver tudo o que a vida tem me presenteado.

E foi assim que percebi que alguns hábitos que eu tinha fazem todo o sentido. Como ir para a janela todos os dias assim que acordo e admirar, por alguns segundos, a vista que tenho do nosso apartamento. Percebi que outros hábitos não tem motivo de não terem lugar na minha vida, que as desculpas que me dava eram apenas isso, desculpas. E foi assim que eu voltei ao ballet, depois de mais de 15 anos. Foi assim que comecei finalmente a Yoga. Foi assim que eu tenho me demorado mais no passeio com os filhotes, aproveitando para ver as estátuas, prédios no caminho. Foi assim que voltei a bem devagar retomar a prática ao piano. Cozinhar mais. Cuidar mais da casa. Cuidar mais de mim. E foi assim também que cortei de uma vez da minha vida – presencial e virtual, – pessoas que não faziam a diferença, para o bem ou para o mal.

E sim, as coisas parecem muito melhores. Eu me sinto muito mais rica e abençoada, porque consigo usufruir mais do que minha vida oferece. E parece que a vida oferece mais quando a gente pára para prestar atenção.

Um certo dia, eu resolvi mudar. E fazer tudo o que eu queria fazer. E ó: nem doeu.

PS: Eu sei que já faz mais de seis meses que eu não escrevia nesse espaço e que na última vez eu disse que a fase difícil seria curta. Mas não foi. Mas enfim, acabou. E essas três linhas é tudo o que quero dedicar a esse tempo.

Cresceu no interior de Minas, sempre cercada de livros. Desde criança tem uma alma antiga. Encontrou no Rio o amor da sua vida, com quem ama viajar e se casar (again and again). É mãe de dois buldogues, Maquiavel e Foucault, jornalista e mestre em Estudos Estratégicos.

8 Comments on Um certo dia resolvi mudar e fazer tudo o que eu queria fazer

  1. Lu Castro
    30 de setembro de 2014 at 13:21 (3 anos ago)

    A-D-O-R-E-I!!! E adorei mais ainda a definicao de ansiedade! To indo na Amazon comprar o livro!! Parabens pelo blog, bem divertido e descontraido.

    Bjos
    Lu

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    • Jackie Mota
      30 de setembro de 2014 at 13:23 (3 anos ago)

      Que bom que gostou. Volte sempre! =)
      bjs,

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  2. Teté Lacerda
    18 de julho de 2014 at 15:45 (3 anos ago)

    adorei o texto, compartilho desse sentimento – viver o hoje, ter gratidão pelas pequenas coisas… yoga e meditação já fazem parte da minha vida e são coisas que me dão paz e prazer.
    temos que nos encontrar um dia pra tomar um café! beijo

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    • Jackie Mota
      13 de agosto de 2014 at 20:37 (3 anos ago)

      Oi Teté, teu comment tinha ficado no spam. Yoga é uma coisa que me tem me dado muito prazer a cada dia mais, especialmente depois que li que Yoga é sobre autoaceitação. Tem mudado minha vida.
      Vamos marcar um cafezito quando estiveres aqui pelo Rio!
      beijos,

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  3. 25 de junho de 2014 at 12:00 (3 anos ago)

    tem explicação eu me identificar com tudo o que você escreveu (exceto a parte dos cachorros)? pois então.
    tenho tentado fazer isso: parar pra prestar mais atenção a tudo o que está a minha volta. aqui em Brasília, parece que o tempo passa mais devagar (menos quando eu tô estudando, porque é tanta coisa que parece que não cabe nas horas do dia), parece que eu tô numa cidade do interior, e eu tô sentindo que tô conseguindo me conectar muito mais comigo mesma aqui. por isso já tem um tempinho que ando querendo fazer meditação, yoga, coisas assim, que eu acho que me ajudariam nesse processo de autoconhecimento. vamos ver se eu consigo tirar logo esses projetos do plano de “projeto” e passar pra execução!!

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    • Jackie Mota
      26 de junho de 2014 at 16:13 (3 anos ago)

      Tomara que consiga, Le. A verdade é que as dificuldades aparecem, né? Acaba que a gente fica num vai, começa, larga, volta. Mas o negocio é não abrir mão, tornar isso uma prioridade nossa – porque as coisas “pros outros” são sempre prioridade,né, e as da gente vão ficando pra trás.
      bjs,

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  4. Tatiane
    20 de junho de 2014 at 21:03 (3 anos ago)

    Fiz um curso que me serviu pra ver muito disso que vc tá falando. Foi ótimo tomar consciência da minha respiração do quanto ela influência do estado emocional, foi bom aprender a meditar.

    Foram 5 dias intensos pra olhar pra mim.
    O desafio agora é conseguir encaixar isso na rotina do dia-a-dia!

    Que bom que vc está conseguindo. 😉

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