A história em uma viagem: eu estava em Cuba quando Fidel morreu

Quem nos acompanha pelas redes sociais (Facebook e Instagram) sabe que estávamos em Cuba quando foi divulgada a morte de Fidel Castro. As lembranças daqueles dias ainda me parecem um pouco irreais. Eu acordei e Rômulo me disse exatamente isso: Fidel morreu. Bom, eu ri. Afinal, temos um histórico de pegar uns perrengues geopolíticos pelo mundo, mas nada que a gente tenha previsto ou “brincado” sobre antes da viagem –  um golpe militar na Tailândia, protestos violentos na Venezuela e uma ameaça de invasão chinesa no Vietnã. Julgamentos políticos de Fidel à parte, é inegável a importância do evento e foi um privilégio poder ter presenciado os dias que se seguiram no país. Além disso, conseguimos uma ótima história para contar ao nosso filho(a) sobre a primeira viagem internacional dele, ainda na minha barriga.

A história em uma viagem: eu estava em Cuba quando Fidel morreu

Homenagem a Fidel ao fundo, próximo à estátua “Che com el niño”, em Santa Clara (Cuba)

A notícia da morte de Fidel

Recebemos a notícia da morte de Fidel Castro quando estávamos no finzinho da nossa viagem de duas semanas por Cuba. Depois de passar por cidades grandes como Havana e Trinidad e locais menores, mas históricos, como Playa Larga, estávamos em um dos cayos (ilhas) do Norte: Cayo Guillermo. Ao contrário de todas as outras paradas, em que nos hospedamos em casas de cubanos, ali estávamos em um resort.

Vimos a notícia assim que acordamos e aquele sentimento de “será que ainda estou sonhando” foi intensificado porque ninguém parecia estar nem aí para o fato ao nosso redor. Tudo continuava exatamente como no minuto anterior. Os muitos canadenses se revezavam entre piscina e praia, os coquetéis voavam dos bares para as mesas, os funcionários seguiam repondo o buffet do restaurante. Parecia mesmo coisa da nossa cabeça ou um sonho bobo. Pra completar a sensação de estranhamento, a internet, que até aquela manhã de sábado funcionava hiper rápido, decidiu sair do ar e assim permanecer até o domingo à noite.

Sem acesso à internet, começamos a tentar decidir os próximos passos com base apenas nas notícias da tv a cabo e o que conseguíamos apurar com os funcionários do hotel. Era sábado e pelo nosso roteiro original sairíamos do resort na segunda por volta de 13h pra a cidade de Santa Clara. Lá ficaríamos até terça à tarde, quando iríamos para o aeroporto, deixando Cuba. Diante da notícia, no entanto, decidimos sem pestanejar que não poderíamos perder o funeral. O problema era descobrir se haveria um, quando e onde.

A história em uma viagem: eu estava em Cuba quando Fidel morreu

Foto em frente ao ponto turístico de Santa Clara: o Mausoléu de Che Guevara

Os canais cubanos transmitiam longas entrevistas com personagens que tiveram contato com Fidel ao longo de sua vida ou mostravam universitários emocionados em vigília chorando a morte do líder. Pouco informavam sobre o que aconteceria nos próximos dias e, muito menos, sobre o que tinha ocorrido com Fidel. Mas repetia-se a todo momento que todos os cubanos teriam a oportunidade de prestar seu respeito a Castro e que o luto oficial seria de nove dias. Já os canais internacionais mostravam a festa da colônia cubana em Miami e tentavam analisar a importância de Castro para a história mundial.

Com as poucas informações disponíveis, fechamos nosso plano: sair do resort no domingo, seguir para Havana, pois imaginamos que o velório seria por lá, e deixar a capital na terça de manhã direto para nosso vôo em Santa Clara. Começamos a tentar achar um táxi e tentar ligar para o dono da casa em que havíamos estado em Havana. Seria uma longa viagem – cerca de 8h – e sairia caro: nos cobraram 200 CUCs (o equivalente a 200 dólares; para comparar, pagamos 30 CUCS por pessoa de Trinidad até ali).

Mas, então, no fim do sábado eu comecei a ouvir, nos noticiários internacionais, a palavra “ashes“. Em bom Português: cinzas. Comentei com o Rômulo que achava que Fidel tinha sido cremado e que talvez não houvesse exposição do corpo.

Cabe aqui comentar que uma das coisas que havia me chamado a atenção durante nossa viagem era a não confirmação de uma idéia pré-concebida que eu tinha sobre Cuba. Esperava encontrar um forte culto à personalidade de Fidel por lá, como já havia visto em outros países como a Tailândia, Vietnã ouRússia – nesses dois visitamos as múmias de Lênin e Ho Chi Minh, ex-líderes políticos. No entanto, Rômulo e eu ficamos um pouco surpresos com a falta desse culto a Fidel até mesmo em locais oficiais como os museus. Por conta da nossa crença pré-viagem, estávamos esperando um funeral de corpo exposto e, quem sabe, um processo de mumificação como de outros líderes socialistas.

Estávamos errados. Nos próximos boletins ficamos sabendo que Fidel já havia sido cremado, supostamente naquele dia. Mais tarde se divulgaria que o próprio Fidel deixara expresso o desejo de não ser cultuado e de não ter seu nome dado a locais públicos, o que virou lei em Cuba.

A história em uma viagem: eu estava em Cuba quando Fidel morreu

Bandeiras a meio mastro no Mausoléu de Che Guevara, pela morte de Fidel

Nós seguimos aguardando informações sobre o funeral e elas chegaram no domingo. Todas as cidades teriam cerimônias de homenagem póstuma ao líder, de modo que todos os cubanos pudessem ir prestar seu respeito em um local público. No dia 29, terça, haveria uma cerimônia grande na Praça da Revolução, em Havana, à noite. No dia seguinte, as cinzas deixariam a capital e fariam um trajeto histórico: 57 anos depois, o percurso, inverso, repetiria a Caravana da Liberdade em que Fidel chegou à capital quando sua revolução triunfou no país. No dia 4, as cinzas seriam enterradas em Santiago de Cuba, berço tanto do político quando da revolução, em uma cerimônia privada.

Com as informações completas, tomamos nossa decisão. Como Santa Clara também teria uma cerimônia, não mudaríamos nosso roteiro, pois poderíamos participar do momento lá mesmo, com a vantagem de poder ver como estava reagindo o país fora da capital. Seguimos, então, para nossa última parada em Cuba, umas cidade que havia sido escolhida para o roteiro por abrigar os restos mortais de Che Guevara. Agora, nosso principal motivo para à cidade continuava ligado à morte. Mas a de outro líder da Revolução Cubana.

Participando da cerimônia fúnebre de Fidel 

Como em outros trechos em Cuba, viajamos em um táxi coletivo. Dividimos a viagem dessa vez com duas alemãs. Já na estrada começamos a ver vários trechos interditados, com máquinas na pista, funcionários espalhando piche. Uma grande movimentação que não havíamos visto em nenhum outro trecho da viagem.

Em Santa Clara, não precisamos procurar por nada. Saindo da casa em que nos hospedamos as ruas já estavam tomadas pela população. Havíamos acabado de chegar à cidade, mas era impossível julgar que aquela fosse a movimentação normal de Santa Clara. Havia barreiras para carros nas ruas e muitas pessoas pintavam as fachadas dos prédios. O meio-fio da rua também exibia pintura recente. Ligamos os pontos: estavam deixando a cidade, assim como a estrada, em dia para a passagem da Caravana com as cinzas de Fidel.

Já era noite e nos dirigimos ao Parque Leôncio Vidal, ponto de encontro da cidade. Nos arredores vimos se formando filas e filas e filas de pessoas. Andamos até o ponto mais próximo possível da praça e, em uma das barreiras, interroguei uma pessoa que parecia organizar o movimento. O senhor, super simpático, nos informou que todos ali esperavam para ter acesso ao Palácio Municipal, o local onde estava sendo realizada o funeral de Fidel. Pela minha cara de surpresa, ele explicou como estava sendo a cerimônia. Agradecemos a informação e comentamos que adoraríamos ir até lá. Não sei se eles estavam agindo assim com todos os turistas, se foi o fato de eu estar grávida ou se ele achou que era melhor vermos por nós mesmos para entender melhor, só sei que ele nos deixou passar direto para a praça.

Entramos então na fila já no Parque Vidal. Meu primeiro impulso foi pegar a câmera para tirar fotos, mas fiquei constrangida porque as pessoas perto de nós na fila estavam muito comovidas. Todos seguiam em silêncio e mesmo com tanta gente na rua, só se ouvia uma música instrumental ao fundo. Achei melhor manter uma postura mais contida, por respeito a essas pessoas. Então, só fotografei com o celular mesmo, quando estávamos quase em frente ao Palácio Municipal.

A história em uma viagem: eu estava em Cuba quando Fidel morreu

Na fila em direção ao Palácio Municipal

A história em uma viagem: eu estava em Cuba quando Fidel morreu

Bem em frente ao Palácio Municipal, que sediou as homenagens a Fidel em Santa Clara

Finalmente entramos no Palácio, que hoje funciona como uma biblioteca, por sua porta principal. Era de lá que vinha a música instrumental, de um aparelho de som. Lá dentro, um quadro com a foto de Fidel mais jovem repousava acima de uma coroa de flores. A fila de pessoas passava rapidamente em frente ao arranjo simples. Algumas pessoas choravam, outras apenas faziam uma saudação silenciosa, se despedindo daquele que foi o chefe do país por quase meio século. Depois, a fila seguia para uma porta lateral, que já dava na rua.

Ali fora, várias outras pequenas filas estavam formadas em casas dos dois lados da rua. Os cubanos esperavam para assinar seu juramento de honrar a revolução. Na porta de cada um desses locais era possível ler o juramento.

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Fila para assinar o juramento de honrar a revolução cubana

A história em uma viagem: eu estava em Cuba quando Fidel morreu

O juramento à revolução, ao lado de uma foto de Fidel ainda jovem

Após participar da despedida de Fidel naquela noite, fomos para a nossa casa dormir, confesso, ainda sem acreditar em tudo aquilo. Nessa casa não tínhamos tv no quarto, então não tivemos mais notícias do mundo nem acesso aos canais oficiais cubanos.

No dia seguinte, saímos cedo para cumprir nossa programação turística original na cidade, que incluía visitar o Mausoléu de Che Guevara. Passamos pela proximidade do Parque Vidal novamente e o movimento e as filas para a despedida a Fidel continuavam. Gravamos um vídeo, que subimos na fanpage do Viaje Sim! naquele dia:

Como gostamos de andar, decidimos ir a pé até o Mausoléu. Foi uma boa decisão, pois pudemos dar uma olhada em áreas mais residenciais da cidade, fora do centrão. Pelo caminho, fomos encontrado cartazes, bandeiras, pinturas e outras manifestações de despedida a Fidel.

A história em uma viagem: eu estava em Cuba quando Fidel morreu

A história em uma viagem: eu estava em Cuba quando Fidel morreu

A história em uma viagem: eu estava em Cuba quando Fidel morreu

A visita ao Mausoléu foi ótima e recomendo para quem vai a Cuba. Realmente é onde se conta de forma mais completa a história de Che e onde se pode ver mais objetos pessoais do político. A morte do revolucionário, no entanto, acabou ofuscada pela morte de seu parceiro naquele dia. No mausoléu havia um ponto para assinatura do juramento e ali estavam entregando uma cópia do documento. Foi assim que conseguimos nosso melhor souvenir histórico de todas as nossas viagens. Talvez precisássemos dele para ter certeza de que nossas memórias não eram um sonho bobo desses que temos antes de viagens muito esperadas. Sim, estávamos viajando e vimos a história.

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7 Responses to “A história em uma viagem: eu estava em Cuba quando Fidel morreu”

  1. Tatiana 12 de janeiro de 2017 at 21:44 #

    Ahhhhh, que sonhoooo!!!!! Eu e meu marido estávamos na África do Sul quando aconteceu, e comentei na mesma hora “imagina se a gente estivesse lá…”.
    Cuba foi uma das melhores viagens da vida! Quanto aprendizado!
    PS: Também pegamos os protestos em Bangkok e por pouco não ficamos no meio da porradaria! rs

    • Jackie Mota 28 de janeiro de 2017 at 12:27 #

      Essas coisas acabam tornando as viagens ainda mais “únicas”, né? Tem gente que reclama dos percalços, como manifestações etc. Eu acho ótimo qd podemos participar um pouco da “vida” local =)
      abs!

  2. Paula Almada 4 de janeiro de 2017 at 15:54 #

    Incrível e emocionante relato, Jackie! Que sorte ser testemunha tão próxima desse momento da história.

  3. Eduardo Barros Leal 4 de janeiro de 2017 at 10:21 #

    Queria estar em Cuba exatamente nestes dias da morte do grande lider da revolução cubana, tenho feito algumas viagens pelo mundo, a última foi Emirados, Israel e Jordania, tenho grande vontade de conhecer Cuba, principalmente Havana, mas queria viajar por uma agencia e me hospedar em casa de moradores de Havana, não sei se uma agencia disponibiliza este tipo de hospedagem.

    • Jackie Mota 4 de janeiro de 2017 at 20:45 #

      Eduardo, realmente, para ficar na casa dos cubanos você tem duas opções:
      ou reserva diretamente com eles, normalmente por email;
      ou reserva pelo AirBnB. Nós usamos as duas opções. Vou postar a casa onde ficamos em Havana e nas outras cidades usamos o Airbnb. Vc pode usar esse link para entrar pro Airbnb: http://www.airbnb.com.br/c/jackelinem12

  4. Itamar Japa 3 de janeiro de 2017 at 15:25 #

    Foi um momento histórico esta viagem eim? Acompanhei os acontecimentos pela RT-TV e vi um pouco da mobilização no país (e fora dele).
    Fidel não queria que sua imagem fosse idolatrada pois segundo ele a glória da revolução não pertencia apenas a ele… Ele rejeitava qualquer manifestação de culto à personalidade. Há alguns dias foi assinada a lei que proíbe que o nome de Fidel seja transformado em praça, rua, etc e também que sejam feitas estátuas, bustos etc em sua referência. Conforme seu desejo não vai ter nada na ilha que idolatre sua figura.

    Eu acho que viajar pra Cuba já é uma coisa memorável, mas vocês pegaram um dos maiores acontecimentos da história. Realmente é um momento pra guardar na memória, pra sempre.

    Abraços.

    • Jackie Mota 3 de janeiro de 2017 at 18:09 #

      Obrigada pelo comentário, Itamar. Sem dúvidas é uma lembrança pra vida.
      Abs,

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