Quando estava fazendo o roteiro do mochilão sempre lia ótimas opiniões sobre Arequipa. As pessoas voltavam apaixonadas pela cidade branca. Então, fiz questão de incluí-la no roteiro. Nós também voltamos de lá encantados, passamos um dia super agradável e ficamos pensando que a cidade seria perfeita para uma lua de mel. Mas, antes de contar a história do passeio em Arequipa, temos outra história para contar. É a história da noite em fizemos tudo aquilo que a gente sempre diz que um turista não deve fazer para sua segurança. A história de como, apesar disso, chegamos sãos e salvos a um quarto de hotel em Arequipa.
Apesar de eu estar convencida de que adoraríamos Arequipa, o Rômulo só queria dar uma passada pela cidade. Então, segundo nosso roteiro, chegaríamos pela madrugada, quase manhã, passaríamos o dia por lá e à noite seguiríamos para Nazca. Tudo redodinho. No papel.
Na vida real, a saída de Puno foi bem complicada, pois a empresa que eu tinha como referência (era um ônibus leito que os relatos diziam ser perfeitos para descansar à noite) já não tinha mais passagens para aquele dia. Rodamos a pequena rodoviária da cidade até encontrar outra empresa que fosse para Arequipa ainda naquela noite. Achamos a Juani. Compramos as passagens para as 20h (custaram 35 soles cada), o que era bem mais cedo do que nosso roteiro previa e o que nos impediu de sair da rodoviária e procurar um hostel para tomar banho antes de embarcar, por exemplo. Mas enfim, comemos uma pizza e um hamburguer bem ruins na rodoviária e embarcamos.
Rômulo gostou do ônibus, eu achei um pouco desconfortável, mas foi uma viagem tranquila. Lá pelas 2h chegamos à Nazca. É, 2h. No nosso planejamento chegaríamos às 6h e iríamos a pé procurar um hostel pelo entorno da rodoviária. Mas àquela hora não achei que devíamos sair da rodoviária. Arequipa é uma cidade de 1 milhão de habitantes, eu tinha lido relatos sobre golpes em táxis, assaltos na rua. Então, o que fazer?
Começamos a conversar e o Rômulo, que não estava nem um pouco empolgado pela cidade, disse que por ele iríamos direto a Nazca. Fomos, então, checar o horário do próximo ônibus pra lá. Mas, não adiantava, chegaríamos depois do horário de saída do passeio na cidade (o sobrevôo das linhas de Nazca). E aí ficamos naquele impasse. Ficamos? Onde? Vamos dormir aqui na rodoviária até amanhecer? Arriscar um táxi? Ir direto para Lima?
Enquanto conversávamos uma senhora se aproximou e nos disse que no segundo andar funcionava um escritório de turismo da cidade, onde poderíamos pegar informações. Então, lá fomos nós. E a senhora que tinha vindo falar conosco, também. Ela trabalhava lá. Já achamos esquisito. Nos entreolhamos, acendendo o modo turista em alerta. Mas lá fomos nós. Ela nos mostrou um mapa da cidade, disse que poderia nos arrumar um hostel com bom preço. Ela falava e íamos concordando e trocando olhares incrédulos.
A moça então ligou e reservou o hostel por um preço ótimo (60 soles!). Pensei, “ok, em algum momento teremos que pagar uma comissão, mas está ótimo, íamos ficar abandonados aqui na rodoviária mesmo”. Mas não, ela não pediu nada.
Quando ela disse que estava reservado eu perguntei sobre o táxi, que tinha lido que era perigoso, pois tinha táxi pirata e ela confirmou tudinho que eu tinha lido. Então, se levantou e disse: eu levo vocês.
Meu olhar e do Rômulo se cruzaram e tive certeza que ele pensava o mesmo que eu: pronto, ela vai nos sequestrar, vamos acordar sem um fígado, vou virar escrava. Mil possibilidades de golpes passaram pela nossa cabeça. Porque afinal, infelizmente, não é comum uma pessoa sair da sua mesa de trabalho, fazer mais que sua obrigação, ir resgatar dois turistas que nem tinham pedido ajuda a ela e os ajudar com tudo, informações, reserva e até serviço de delivery. Era bom demais para acreditar. E a imagem da minha mãe infartando ao saber disso tudo não saía da minha cabeça. Mas acreditamos e fomos com ela.
Pegamos um táxi e levamos uma aula sobre táxis piratas. Fiz questão de levar minha mochila comigo no colo, pois pensava que em algum momento iam nos jogar para fora do carro. Tinha lido sobre um caso assim em Caracas. Rômulo não entendeu meu olhar quando sinalizei isso e colocou a mochila dele no porta-malas. Memorizei a placa do carro também.
O táxi se afastou da rodoviária e enquanto andávamos, eu ia vendo como a cidade era grande. Tentava imaginar para onde nos levavam. Então, à medida que percebi que a cidade ficava mais branca soube que estávamos, de fato, indo em direção ao centro histórico. Ali, numa ruazinha branca, o táxi parou. Descemos. O hostel ficava em um prédio branco. Fizemos o check in, acompanhados da nossa anfitriã. Vi na parede o preço original – o dobro do que estávamos pagando – e a moça se despediu. Assim, sem pedir nada, dando conselhos sobre o que fazer no dia seguinte, ela foi embora.
Subimos uma escada, entramos no quarto, pequeno, mas muito limpo e muito novinho. Usamos o wi-fi, ligamos a TV – ficamos sabendo naquele dia sobre o naufrágio do Costa Concordia, que tinha ocorrido há vários dias. Tomamos um banho quente e ainda pensávamos: em que momento vai chegar a conta dessa sorte toda?
Dormimos super bem e pela manhã tomamos o café, simples, e a recepcionista nos arrumou lavanderia e um city tour. Passamos um dia muito agradável, nos apaixonamos por Arequipa. À noite, ao voltarmos ao hotel nos arrumaram um táxi para irmos à rodoviária. Ainda a caminho de lá pensávamos: é, vai ser agora que vai acontecer algo ruim. Nada podia ser tão perfeito.
Mas foi. Embarcamos (em um ônibus ótimo!) e assim saímos de um dia em que cuidaram de tudo para nós. Um dia em que um anjo parece ter se importado com dois mochileiros com roteiro furado. É, acontece.
Texto: Jackeline Mota; Edição: Rômulo Elizardo; Fotos: Viaje Sim!









ah sim, barganhar é comum, mas a gente ficou olhandopra ver se ela ia receber comissão do albergue, e não recebeu. além disso pagamos metade do preço de tabela, então não fazia mt sentido. a gente tb encontrou “atravessadores” em outros momentos, mas ela não tinha esse perfil, sabe. Era uma mulher, nem era senhora ainda, mt bem vestida, calma e tal. E ela trabalhava lá na rodoviária mesmo, no escritório de turismo.
abs,
ahaha, mas no Peru isso é bem comum! Em Puno e em águas calientes, a gente negociava hospedagem barata com pessoas que estavam esperando a gente sair do ônibus/trem.
Realmente é horrível, mas a gente tende a achar que td mundo vai aprontar, ser espertão. E sim, ainda existem mts anjos por aí.
abs,
Eu viajo sempre nessa do improviso. Chegar de madrugada na cidade já é meio default, porque é sempre mais barato. Apesar de viajar sozinha, eu nunca tive medo. Nunca, até o dia que fui extorquida no Líbano e passei 6 horas de horror. Eu tinha certeza que não levariam só meu fígado. Só conseguia pensar em como minha família ía descobrir meu corpo perdido por lá. Depois daquele dia, jurei que nunca mais iria para países sub-desenvolvidos sozinha, que nunca mais iria entrar num ônibus noturno sozinha e aí fui para a Bolívia meses depois. Cheguei de madrugada, sem reserva (como sempre) e só para variar, apareceram uns anjos para me ajudar. Só não sei quando que o pessoal lá de cima vai parar de me mandar ajuda, porque andei abusando nos últimos anos. A grande verdade é que tá cheio de gente honesta no mundo (muito mais do que a gente imagina). Infelizmente, vivemos num país que o jeitinho é quase lei e julgamos todos os outros pelo que é feito aqui. E de maneira geral, eu sempre dou chance para as pessoas, mesmo depois de já ter passado por 1.001 perrengues.
Carolina, seu comentário foi pra caixa “errada”, vou colar aqui:
“acho que ela foi tão legal com vocês porque alguém anteriormente já foi muito legal com ela. então, ela sabe bem o valor que uma gentileza como essa tem.”
Realmente, pode ter sido um “passe adiante”, né?
bjs,
acho que ela foi tão legal com vocês porque alguém anteriormente já foi muito legal com ela. então, ela sabe bem o valor que uma gentileza como essa tem.
Obrigada pelo elogio, Ludmy. Adorei saber que vc é uma anja. acho que agora depois de ter experimentado a ajuda de uma vou passar a tentar ajudar mais também =)
Sim, nos vemos sábado, estou ansiosíssima!
beijinhos,
Post super bem escrito. Fiquei a todo momento na expectativa do “quando vai acontecer algo”? Eu acredito em anjos e sou a primeira que, ao ver um turista perdido em Madrid, me ofereço para ajudar. Nos vemos sábado, no Seminário!
Pois então,e u não fico alerta nunca, a não ser em momnentos onde eu já tenha lido alguma coisa, tipo na hora do táxi aqui, no ônibus no Peru, mas normalmente eu super relaxo. Mas nossos anjos parecem estar sempre de plantão pq nunca aconteceu nada rs
bjs,
Pois é, Celina, os viajantes também parecem ter um setor lá em cima rs Essa anja foi demais rs
bjs,
Querida, eu acredito nesses anjos! Acredito que foram enviados para salvar almas viajantes! Aconteceu comigo em Veneza e um anjo desses apagou a noite tenebrosa que eu e minha filhota passamos dentro de uma cabine de um “trem do terror” vindo de Roma.
Eu definitivamente acredito em anjos! bjokas
Jackie que coisa hein… Eu fico muito mais em alerta do que o marido, presto atenção em tudo e em todos, mas não sou do tipo neurótica, pois conheço gente que é, rsrsrsr. Nessa situação eu pensaria igual a vc, principalmente na parte em que vc pensa que vai virar escrava e perder o fígado, kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk. Melhor mesmo´é pensar que foi um anjo, que o santo protetor dos turistas mandou pra tirar vcs dessa.
Imprevistos sempre acontecem, em Buenos Aires resolvemos conhecer o zoológico de Lujan, na ida foi tranquilo, fomos de vã coom uma empresa particular super recomendada, mas na volta calculamos o tempo do passeio errado e resolvemos voltar por conta própria, seguimos então para a pista principal pegamos o primeiro ônibus com um nome familiar, ele era de ar condicionado mas estava quebrado ( imagina o bafo), estava super cheio só eu fui sentada, o marido foi em pé, a fome começou a apertar o centro da cidade não chegava nunca, aí vi um shopping que já tinha ouvido falar e resolvemos descer. Almoçamos e depois voltamos pro hotel de táxi. Não foi tão emocionante quanto o seu, mas é uma situação que por mais programado que seja o roteiro perfeito sempre será mais bonito no papel do que na viagem real!!!
Bjos
=) Realmente tem que ficar alerta mesmo, mas a gente relaxa muito, em muitos locais e tal. Atpe hj a gente ainda se pergunta por que ela foi tão legal com a gente?
bjs,
Gostei do Turista em alerta, mode on..hahaha. O meu fica ligado o tempo todo e, realmente, a gente se surpreende em situações como a que vocês vivenciaram