Uros, o povo que os incas não conquistaram

Demorei a retomar os relatos do mochilão, né? Mas aqui estamos para começar a falar do Peru. Atravessamos a fronteira da Bolívia com o Peru vindos de Copacabana e nossa primeira parada seria na cidade de Puno. É dali que sai o passeio até as Ilhas Uros, ou ilhas flutuantes, uma grande atração do Peru.





As tais ilhas ficam no Lago Titicaca e são habitadas pelo povo Uros, um povo primitivo que chegou ali fugindo da expansão inca vinda do norte. O mais interessante é que as ilhas não existiam: elas foram feitas pelos Uros. Sim, as ilhas são artificiais, feitas utilizando o capim totora, típico do local. Hoje em dia existem aproximadamente 66 ilhas e 2,3 mil pessoas vivendo nas ilhas. 

Como estudo guerras fiquei enlouquecida com esse povo que para não se submeter ao domínio inca simplesmente criou um novo território, dentro do Lago, para continuar independente. Não é impressionante?




Mas, claro, viver em uma ilha feita de capim tem seus problemas. Os Uros precisam ter muito cuidado para que a ilha continue a fluturar, por isso o trabalho de trançar o capim é contínuo. Além disso, a alimentação também teve que ser adaptada e o capim totora se tornou a principal fonte. E viver num solo úmido e macio (a ilha é firme, mas bem macia, como andar num colchão) gera muitos problemas de saúde, sendo bronquite e artrite os mais comuns.

Enquanto moravam ali, isolados, os uros não tinham dinheiro. Mas hoje em dia já utilizam, especialmente o deixado pelos turistas que são muitos e chegam ali de barca para conhecê-los e podem comprar algum artesanato feito com o campim.

Nós fizemos esse passeio, que já compramos lá em Copacabana mesmo. Descemos na rodoviária e fomos levados a um táxi, que nos deixou no cais. Pegamos a barca e depois de uns 30 minutos chegamos a uma primeira ilha, onde assistimos a uma apresentação sobre os Uros, com um guia e um menino local. Provamos o capim totora (tem gosto de palmito beeeeem aguado) e depois fomos conhecer o interior da casa de uma família. As casas são muito simples, um único cômodo para vários moradores. Na casa que visitamos morava Melina, seu marido e seus 5 filhos. Ela cria trutas, flamingos e faz artesanato. Compramos com ela um barquinho feito de capim totora.

As crianças frequentam a escola. Há escolas para os Uros desde 1963 e a primeira foi uma escola adventista.




Depois pegamos um barco de capim totora para outra ilha. Lá havia uma lanchonete, mas nem comemos nada e depois, de barca, voltamos ao cais.

Esse é um daqueles destinos que nos fazem refletir sobre os efeitos do turismo. A mudança de cultura e hábitos dos Uros por conta das visitas é clara. Os moradores ficam esperando os turistas e são muito receptivos, por exemplo, para mostrar suas casas porque esperam alguma gorjeta em troca. Enquanto estávamos no barco de totora, por exemplo, umas criancinhas conataram uma versão em espanhol da canção My Bonnie. Era uma gracinha, claro, mas era obviamente um número ensaiado para os turistas.





Então o passeio se tornou uma coisa bem turística, sim. Como a procura é alta (chegam barcos a toda hora, todos os dias), muitos uros se adaptaram a viver dessa atividade e isso é uma mudança importantíssima para um povo que sequer utilizava dinheiro. Ao mesmo tempo, esse dinheiro permite que os uros tenha acesso a bens modernos e que podem facilitar sua vida. Atualmente, por exemplo, usa-se energia solar na ilha, em vez de fogo, o que diminuiu drasticamente os acidentes gerados por fagulhas em ilhas feitas de capim. Ou seja, é uma questão complicada julgar os efeitos do turismo, se está deturpando a cultura ou se está ajudando-os a viver melhor.

De todo modo, os Uros são entre os povos cotemporâneos o mais interessante que já conheci e sua história de resistência merece ser conhecida.

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