Como dois apaixonados por história e literatura é claro que somos encantados pela Rússia e que o país é um dos nossos destinos mais sonhados. Então imagine nossa surpresa e felicidade quando em um passeio durante a semana até Teresópolis, a cerca de 90 km do Rio, decidimos parar em um restaurante apontado pelo
Foursquare perto da estrada e fomos surpreendidos com um
jantar servido conforme a tradição da nobreza russa da época dos czares.
É, é isso mesmo que você leu. O restaurante
Dona Irene, fundado em 1964 pelo casal de siberianos Miguel e Irene, oferece almoço e jantar sempre no mesmo esquema: um banquete em 4 etapas seguindo a tradição dos nobres russos. A classe que foi organizada com a reforma do Estado russo no século XVII, por Pedro I, viveu na ostentação até 1917, quando as revoluções (de fevereiro e outubro) transformaram o país em socialista. A nobreza era eminentemente rural (80% da população vivia no campo até 1917) e dominava as principais instituições da sociedade: igreja (ortodoxa) e exército.

Chegamos ao Dona Irene embaixo de muita chuva e fomos recebidos no jardim com um providencial guarda-chuva. Uma moça nos atendeu e explicou como funcionava o local enquanto adentrávamos a linda propriedade, decorada com muitas fotos de família, espelhos e detalhes requintados no papel de parede, nos vitrais, na mesa posta. Ficamos surpresos com o estilo oferecido, e apesar de inicialmente termos pressa, mudamos os planos, e ficamos para jantar (na verdade um almoço tardio, eram 17h30).
Recebemos o cardápio, um sininho para chamar a atendente, a explicação de como seria o banquete e suas regras. O menu é fixo e apenas o prato principal e a sobremesa são escolhidos pelo cliente entre algumas opções. Junto com a primeira etapa receberíamos uma vodca artesanal, a Nazdaróvia, produzida ali mesmo, e deveríamos saber que é proibido:
1. Beber sozinho;
2. Beber sem comer algo em seguida;
3. Beber a vodca em pequenos goles ou com água.
Aceitamos as normas e então foi servida então a primeira etapa: os zakuskis. São pequenas entradinhas, várias mesmo, todas frias, como caviar, salmão defumado, mini-sanduichinhos com pepino, entre outros. Eu confesso que adorei essa fase e tive que me controlar para não comer muito, pois sabia que haveria muitos pratos ainda.
Os zakuskis ficaram mais populares no século XIX, como boa recepção para os viajantes inesperados que chegavam às mansões nobres. A vodca era o acompanhamento perfeito para ajudar a aquecer os viajantes do frio russo.
Em seguida foi servida a segunda fase: entradas quentes. Vieram para a mesa uma sopa, chamada Borscht, que é um consomé de beterraba e vem acompanhada com os pirozhkis, pequenos pastéis. Talvez por ser louca por pastel, elegi os pirozhkis a entradinha mais gostosa do banquete. Conversando com duas amigas romenas, descobrimos que eles são uns dos quitutes russos mais conhecidos e disseminados pela região.


Em seguida, mais entradinhas quentes: três mini-porções chegaram à mesa. Suflê de berinjela, asa de frango gratinada e outro que já não me recordo (sorry, mas eram muitos pratos, gente).
E aí passamos à terceira fase da refeição: os pratos principais. Eu escolhi o (ou a, não sei) Podjarka que mistura escalopinho de filé mignon e de frango com molho de ervas e batatas noisetes flambado na hora de servir. O Rômulo foi de Varênique, pequenos pastéis recheadosde batata e ervas, com escalopinho de filé mignon e cebolas empanadas. Os dois pratos estavam muito gostosos, fartos e bem frescos e o molho de ervas era realmente delicioso.
Para terminar é servida a sobremesa, escolhida entre umas cinco opções e depois café ou chá. Ficamos com duas opções de tortas, uma delas era de nozes e chocolate, e foi a única reprovação no banquete, pois as duas tortas estavam meio duras, congeladas. Talvez por ser um dia de semana, sem muito movimento, não tinha uma sobremesa fresca. Mas como todo o resto foi divino, ou melhor, nobre, nem de longe estragou a experiência.
Nem de longe esperávamos um jantar tão bacana como esse quando decidimos pegar aquela indicação do Foursquare. Realmente foi uma viagem completa aquele fim de tarde degustando uma comida muito gostosa e diferente, sendo servidos com formalidade ao som de música clássica e sob um friozinho e o barulho da chuva que caía na cidade. Mas mesmo sob calor, a qualquer época do ano, o Dona Irene é uma excelente opção para conhecer a cozinha russa e sair um pouco do nosso plebeu cotidiano.
Serviço
Dona Irene: Rua Tenente Luiz Meireles 1800, Bom Retiro, Teresópolis
www.donairene.com.br
De terça à sábado, de 12h à 0h; Domingos até às 18h
A refeição custa R$ 100 por pessoa (exceto bebidas)
Somente dinheiro ou cheque
Texto: Jackeline Mota; Edição: Rômulo Elizardo; Fotos: Viaje Sim
Curtir isso:
Curtir Carregando...
Pois a dica vale mesmo a pena, Adrielle. Reserve um dia para ir sem horário certo pra voltar, com calma e aproveite essa experiência bem diferente do nosso cotidiano.
Abs,
Muito boa a dica, estou praticamente morando em Teresópolis e estava em busca de dicas bacanas na cidade. Muito bom mesmo. Obrigado por compartilhar isso..
Que bom que curtiu, Mari. Vale uma ida sim, ainda mais nesse friozinho de julho. bjs,
Jackie, que legal!!! Adorei a dica… assim que tiver um tempinho vou lá experimentar!!! bjocas
Ah, viu, podíamos ter ido lá naquele dia!
Não sei se quem nos atendeu foi a neta da Dona Irene, mas era uma moça da nossa idade mais ou menos. E antes de sairmos uma senhorinha veio nos ver, ela era empregada da dona Irene e agora é ela quem toca o lugar.
A vodca é mt boa, mas fooorte né (obvio, é vodca rs). Eu adorei a experiência, mesmo. Fiquei sonhando com São Petersburgo ai ai
beijinhos!
Adorei o post de hoje! Eu AMO a D. Irene!!! Durante minha infância toda, ía lá com meus pais quase todo mês (eles adoravam!) Muito bom saber que ainda existe
As netas da D. Irene ainda são as garçonetes? Eu adorava brincar com elas (elas deixavam minha irmã e eu brincar com as babushkas…) Adorava o borscht e os pirozhkis. Uma delícia! E realmente, a vodka caseira é divina!!! (só fui experimentar mais velhinha, com uns 18-19 anos…na infância não tomava não
Ai, que bom saber que ainda existe! Acho que não vou lá há uns 10 anos. Próxima visita a Terê já sei aonde jantar
Beijinhos e boa semana!